• Guilherme Purvin

Dente de leão, afastamento e oportunidade

- Guilherme José Purvin de Figueiredo


Abro o volume I das obras de Jorge Luis Borges e releio o conto O Aleph, um dos meus preferidos, com os olhos de quem inicia o terceiro mês de isolamento. Surpreendo-me com certas passagens que nunca haviam chamado a minha atenção, a começar pelo primeiro parágrafo:


“Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painéis de erro da praça Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita”.


Uma cena prosaica, a propaganda de rua que é substituída, dá azo à constatação da inexorabilidade da história e da transformação do universo. A renovação de um painel publicitário constituía a primeira de uma série infinita de mudanças na realidade que o afastariam gradativamente da existência de Beatriz Viterbo.

Ressalto aqui o verbo utilizado: afastar –que pressupõe dois pontos de referência no espaço – para indicar o fluxo do tempo. E, aqui, faço uma conexão entre o conto de Borges e o romance “A invenção de Morel”, de Bioy Casares, que imagina a possibilidade de uma projeção tridimensional de cinema. Não, porém, simples hologramas em movimento, mas dotados também de materialidade, hologramas sólidos, réplicas da realidade (como as criaturas produzidas pelo oceano Solaris, no filme de Tarkovski).

Imagino todas as possibilidades que tiveram que ser escolhidas para se alcançar, hoje, o estado atual do planeta como uma flor de dente-de-leão (Taraxacum officinale), na ponta de cada filete nascendo outra flor igual e assim sucessivamente. A História seria o trajeto percorrido ao longo desses filetes sucessivos: cada inflexão é resultante de uma opção política e o tempo presente é o ponto de culminância de todo o passado, como afirma Hegel em sua História da Filosofia.


É curioso pensar que, de acordo com a teoria do big bang, um ponto infinitesimal (singularidade) concentrava toda matéria e toda a energia. Tempo e espaço surgem com a explosão desse ponto, numa projeção que, espacialmente, teria a imagem de uma flor de dente-de-leão.


O tempo é unidimensional – uma linha (trajetória) ligando passado a futuro, enquanto o espaço é tridimensional. Por outro lado, se houve uma “singularidade”, ela se encontraria necessariamente em alguma dimensão. Tempo e espaço, matéria e energia, surgidos na explosão da singularidade, projetam-se por essa quinta dimensão que abriga a singularidade e a deformam. Em outras palavras, o conjunto (a relação) tempo/espaço projetou-se pelos “hiper-eixos” dessa 5ª dimensão. À relação tempo/espaço dá-se o nome de movimento. O movimento pressupõe tempo e matéria ou tempo e energia. As transformações da matéria também são modalidades de movimento. Qualquer dimensão há necessariamente de ter substancialidade. A substancialidade das dimensões interfere necessariamente nos elementos que a compõem. Os componentes das dimensões, por sua vez, integram a própria substancialidade, sem, contudo, completá-la. Ou seja, são subelementos de um conjunto maior. A projeção dos fragmentos da explosão da singularidade pelos “hiper-eixos” desta 5ª dimensão não se deu de modo uniforme. Dentro dos padrões do nosso universo tetradimensional, os ‘hiper-eixos” projetados são infinitos. Pode-se, portanto, afirmar que, mantida a premissa do “big bang” e da “singularidade”, teríamos a ocorrência de infinitos universos que, em sua origem, seriam semelhantes àquele em que vivemos, mas que, em razão da interferência da substancialidade da 5ª dimensão, sucedem-se de forma diversa.


Aos momentos históricos daremos o nome de “espaçogramas estáticos” ou, simplesmente, “cenários” – como o congelamento de uma cena da no projetor de Morel do livro de Bioy Casares. À história, daremos o nome de “cinemática dos cenários”. Os cenários constituem abstrações culturais do tempo: são retratos de um espaço congelado. Eles não existem, porém, como tais, pois não há como excluir o tempo de nosso universo. Este conceito é apenas um artifício para a compreensão da hipótese apresentada. A flecha do tempo e os cenários projetam-se pelos “hiper-eixos” da 5ª dimensão. Como os cenários mudam com o tempo, sua cinemática é que, na verdade, ocorre infinitamente, e possivelmente de formas diversas, em razão da já mencionada interferência da substancialidade.


Por analogia com o conceito de espacialidade, os cenários mais “próximos” (se é que podemos falar em proximidade numa quinta dimensão da mesma forma como falamos em proximidade temporal ou espacial) hão de ser também mais parecidos entre si, ainda que guardem alguma diferença decorrente da interferência da substancialidade daquela dimensão.


Se é dada ao ser humano a liberdade da escolha, isto significa que não reagimos pura e simplesmente aos estímulos externos, mas fazemos opções dentro de um leque de possibilidades que se nos apresenta a cada momento (os filetes da flor). Esta assertiva poderia, porém, ser negada, hipótese em que recairia numa concepção de determinismo histórico absoluto. Por ora, esta última hipótese será descartada, pois a liberdade de escolha, poderíamos dizer, a liberdade em si, não é ilimitada: “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado” (Karl Marx).


Ao redor de cada um de nós, no plano do universo quadridimensional, encontram-se as circunstâncias com as quais os homens se defrontam. As escolhas possíveis são os espaçogramas estáticos ou cenários localizados nos eixos mais próximos dentro da perspectiva da 5ª dimensão. A humanidade movimenta-se coletivamente ao longo da história. Diferentes momentos e realidades históricas nada mais são do que partes de um conjunto mais complexo: a história da humanidade no Planeta Terra.


A história de nossa humanidade, por sua vez, é parte de um conjunto maior, a história do Sistema Solar; e esta, da história da Via Láctea, e assim por diante, até chegarmos à concepção de História do Universo. A pergunta que a humanidade faz é: qual é o nosso papel dentro deste quadro e quais são as nossas possibilidades de interferir na História do Universo?


Valendo-me dessa imagem da flor do dente-de-leão, poderia dizer então que estas possibilidades são infinitas, pouco importando a aparente insignificância da humanidade, dentro de uma perspectiva espaço-temporal.


A infinitude destas alternativas decorre da consciência do homem perante o universo e de sua possibilidade de superar a própria limitação de sua tetradimensionalidade. No entanto, estas possibilidades não se apresentam simultaneamente: a escrita da história não é um painel de uma nave que permita navegá-la em qualquer direção ou velocidade. A mudança nos rumos da história constitui mudança de hiper-eixo trilhado pelos cenários em movimento. Assim, pode-se concluir que constantemente nos deslocamos pela 5ª dimensão. Se a 5ª dimensão contém todas as possibilidades históricas, é possível à humanidade conduzir-se em direção a determinada meta. Esta condução da humanidade pode ser virtuosa e resultar em convívio harmônico da humanidade com o planeta ou resultar em desastres como a pandemia de COVID-19. A condução de forma passional e violenta é muito mais simples de ser exercida, pois não pressupõe formação cultural e solidez de princípios por parte do conjunto da humanidade. Visualizamos o movimento dos (possivelmente diferentes) cenários ao longo dos hiper-eixos como infinitos filetes num dente-de-leão, em crescimento constante.


A transposição de “hiper-eixos” ocorre dentro de uma perspectiva temporal, desde que mantenhamos a premissa de que a velocidade da luz (C) é constante, de acordo com a Teoria da Relatividade. Assim, não é possível a repetição da História, pois as condições de escolha modificam-se continuamente por todos os “hiper-eixos”. É, porém, possível cogitar-se de reprodução parcial de condições históricas determinadas, num certo lapso de tempo, desde que, por casualidade, a humanidade se depare e opte por cenários semelhantes àqueles já conhecidos em outro momento histórico. De qualquer forma, este cenário não é uma repetição de um cenário já vivenciado, apenas apresenta determinados elementos assemelhados. Uma hiper-superfície por onde se desloque o universo é exatamente o conjunto de condições históricas apresentadas à ação humana. Esta hiper-superfície encontra-se em expansão contínua, de acordo com os dados que a ciência nos oferece hoje acerca do deslocamento das estrelas, seu espectro cromático e efeito Doppler. Se a superfície de uma esfera é diretamente proporcional ao comprimento de seu raio, a demora na escolha de opções políticas desejáveis acarreta um distanciamento praticamente irreversível das metas eleitas. Vale dizer, quanto maiores forem nossas vacilações e dúvidas quanto à forma de revertermos um quadro totalmente indesejado, mais remotas serão as possibilidades de revertermos à nossa condição humana ideal. Esta irreversibilidade prática decorre da finitude das condições materiais para a sobrevivência da humanidade no Planeta Terra. Por esse motivo, desde que se opte pela continuidade da vida da espécie humana no universo, a ação política se mostra urgentíssima e mais, ainda que haja uma conjunção integral de vontades, pode se mostrar ineficaz no momento atual. É de Nietzsche a afirmação:


Talvez uma futura visão geral das necessidades da humanidade não faça de modo nenhum aparecer como desejável que todos os homens atuem da mesma maneira; pelo contrário, no interesse de objetivos econômicos, poderiam se determinar para setores inteiros da humanidade tarefas especiais e, em certas circunstâncias até tarefas más. Em todo o caso, se a humanidade não se houver de aniquilar por intermédio de um tal governo geral consciente, terá de ser encontrado antecipadamente, como critério científico para fins ecumênicos, um conhecimento das condições da civilização ultrapassando todos os graus até agora alcançados”.


Tal seria a enorme tarefa dos grandes espíritos do século XX. Sabemos que tais “grandes espíritos” não se desincumbiram de tal tarefa e que os do Século XXI decretam sentença de morte contra parcela humanidade. Cumpre, portanto, identificar as possibilidades de escolha dos cenários mais adequados para que se irradiem valores como saúde, paz, cultura e felicidade. Não há, nos “hiper-eixos” mais próximos, nenhum cenário paradisíaco, mas nossa consciência é capaz de detectar as melhores possibilidades, ainda que se localizem a uma distância angular significativa do espaçograma em que hoje nos encontramos. Se, ainda assim, as melhores possibilidades apenas adiarem cenários mais sombrios, restarão infinitos universos quadridimensionais aptos a realizarem escolhas mais benéficas para suas humanidades paralelas nas obras de Borges e Bioy Casares.


São Paulo, 18 de maio de 2020

Guilherme Purvin não é alemão nem é graduado em Astrofísica ou Filosofia.

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