• Guilherme Purvin

Dia do embarque

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -


1

Foram cinco anos desempregado, zanzando pelas terras do milionário José Joaquim dos Santos Silva, amigo do Imperador Pedro II. Já nem ia para casa, passava a noite ao relento, num banco diante da Igreja da Matriz, no Largo da Sé. Quando amanhecia, atravessava a chácara de Santos Silva sobre o imponente viaduto de concreto, até chegar ao que ainda tinha costume de chamar de Largo dos Curros, para sentar-me num banco diante da Escola Normal.


Sem um centavo no bolso, ficava atento para os anúncios de oferta de emprego, até que numa manhã modorrenta, mais de 30 graus em plenas sete horas da manhã, bati os olhos numa folha de papel que estava sendo afixada nas vitrines do velho rinque de patinação. Estavam à busca de lanterninha para o Cine República. Não esperei o funcionário terminar de colocar o durex no anúncio e já me apresentei para o posto.


— O senhor tem experiência na área? Sabe empunhar uma lanterna sem ofuscar os olhos dos espectadores?


— O senhor está falando com o melhor lanterninha de São Paulo — menti. Nunca havia empunhado uma lanterna na vida. Lanterna para quê? Minha vida era olhar para o céu, em busca de naves espaciais, iguais àquela que havia conhecido em Jundiaí, quando fiz seis anos de idade.


O salário era irrisório, as condições de trabalho eram aviltantes, mas ao menos agora eu não estava mais desempregado. O responsável pela área de RH me explicou que, para ser mantido no novo emprego, teria que concordar em trabalhar 16 horas por dia e aceitar um salário equivalente a 1/3 do piso da categoria. Obviamente tive um alívio, pois em dado momento cheguei a pensar que cobrariam os ingressos para poder entrar na sala de exibição. E, melhor que tudo, receberia um uniforme para usar durante o expediente e poderia fazer a minha higiene pessoal de forma mais ou menos digna no banheiro dos funcionários.


Havia sido contratado depois de mais de cinco anos desempregado. Ali, no Cine Theatro República, vi 180 vezes seguidas o filme A invasão dos discos voadores, de Fred F. Sears e aprendi a admirar esse poderoso veículo de transporte espacial, capaz de percorrer distâncias milhões de vezes superiores à dos bancos do Largo da Sé até meu novo emprego em um piscar de olhos.



2


Foi ali também que conheci uma loira misteriosa, nascida em Guaratinguetá. Seus olhos eram pálidos e mortiços como a luz que emana de um secular e obsoleto candeeiro. Tinha 26 anos de idade e um curioso sotaque francês. Ela me abordou já na segunda sessão do primeiro dia de trabalho. Eu ia avisar a ela que era preciso que todos os espectadores saíssem, para limpar os bancos. Então ela me perguntou, quase em tom de súplica:


— Posso ficar no banheiro durante o intervalo das sessões?


— Sim, claro — respondi, sem saber ao certo se aquilo era uma irregularidade ou se os espectadores podiam rever as sessões quantas vezes quisessem.


No intervalo da segunda para a terceira sessão, a loira fez o mesmo: deu uma piscadinha para mim e foi se esconder no banheiro. Ao final da última sessão, à meia-noite, finalmente ela se apresentou para mim. Explicou-me que os filmes eram um substituto saudável ao vício degradante do qual ela procurava se desvencilhar.


— Eu me apresento a você. Sou Maria Augusta de Oliveira Borges, alcoólatra e ninfomaníaca. Ou, para ser mais requintada, diria que sou apaixonada por vinhos Bordeaux e uma boa companhia masculina, de preferência à meia-luz e ao som de Madeleine Peyroux.


Atravessamos o Largo dos Curros que, àquela hora, estava cheio de mendigos e bêbados. Fomos andando na direção do Largo da Matriz, eu ainda procurando me recuperar do susto com a abordagem objetiva. Respirei fundo e gaguejei:


— Prazer em conhece-la. Eu sou o sobrinho do tio Guerino, dono de um restaurante em Jundiaí. Também tenho um vício, sou ufomaníaco. Sabe o que é isso? Viciado em discos voadores. Você é francesa?


— Meu nome parece francês? Claro que não! Mas vivi em Paris, dos meus 18 anos até uns dias atrás, quando voltei a São Paulo.


— E essa Madeleine... é uma cantora francesa?


— Não, é norte-americana e interpreta meio no estilo de Billie Holliday e Bessie Smith.


Eu nunca dei bola para música, tudo o que queria era voar num disco voador, como o da minha infância, como o do filme. Quando nos despedimos no Largo da Matriz, era como se nos conhecêssemos há muitos anos. Eu só não sabia ainda que vinho, boa companhia, ambiente romântico e música — pudessem ser considerados vícios degradantes... Degradante era deitar num banco da praça, os olhos abertos, fixos naquele céu sem estrelas, coberto por uma poluição iluminada pelas luzes da cidade, na esperança de flagrar o voo de alguma nave alienígena. Minha nova amiga sumiu pelas escadarias do Metrô Sé e eu caminhei rumo ao banco onde costumava me deitar. Já havia alguém deitado lá. Então, me encostei numa parede próxima ao jardim e pensei nos passeios que fazia na infância com meus pais nos fins de semana. A saída de São Paulo era pelo Alto da Lapa, pertinho da casa onde havíamos morado por um ano.


— Vamos ver a casa onde a gente morava? — eu pedia.


— Primeiro precisamos almoçar — respondia a minha mãe. — Do alto do disco voador, você poderá ver aquela maldita casa.


Era sempre assim, todos os meus pedidos eram negados com a promessa de que seriam atendidos quando embarcássemos na nave espacial. Atravessávamos a ponte do Rio Tietê. À esquerda ficava o bairro do Gato Preto, onde morava uma irmã da vovó:


— A minha tia sempre teve muito azar na vida — explicava minha mãe. — Ela era rica, toda esta região pertencia a ela. Mas aí construíram a estrada atravessando bem no meio do sítio, em seguida as torres de alta voltagem. O governo nunca pagou nada a ela. Agora, eles moravam numa casinha simples e passam fome.


A casa dessa tia era relíquia de um tempo em que aquele lugar havia sido uma zona rural distante. Eu me confundia com os nomes desses parentes distantes e procurava me lembrar se já havíamos visitado aquela tia.


— Vamos ver essa tia, mãe?


— Não, do alto do disco voador, você dá um tchau pela janelinha. Se estiverem em casa, vão responder.


Despertei já com o largo agitado. Enfiei as duas mãos no espelho d’água e molhei o rosto e os cabelos. Em seguida, caminhei resolutamente pelas trilhas da Chácara do Chá, rumo ao meu novo emprego. Não via a hora de me limpar melhor e vestir novamente aquele uniforme quatro números maior do que o meu corpo — esperava em pouco tempo ficar mais fornido e preencher os espaços vazios entre minha superfície e a das roupas de trabalho.


Maria Augusta reapareceu na sessão das dez da manhã, impecavelmente vestida de branco, mas com duas bolinhas de algodão nas narinas. A cena se repetiria por várias semanas, até o final da temporada de A invasão dos discos voadores. Voltávamos sempre pelo mesmo caminho e falávamos invariavelmente sobre ufologia, sexo, vinho e música — ou, mais precisamente, sobre Madeleine Peyroux e vinho Bordeau.


No último dia de exibição d’A invasão dos discos voadores, Maria Augusta me esperava, como das outras vezes, que eu trocasse meu uniforme pela roupa rota e malcheirosa que eu usava. Quando saí do banheiro dos funcionários, contei a ela dos passeios que fazia na infância com meus pais. Expliquei a ela que os caminhos bifurcavam a todo instante e que, do lado direito da Via Anhanguera ficava a entrada para o Pico do Jaraguá. Diziam que era a mais alta montanha de São Paulo, por isso a TV Record havia instalado uma torre de transmissão ali no alto. Eu queria muito ver a nova de televisão e aproveitar para comer um algodão doce e, se fosse pelo meu pai, certamente faríamos aquele passeio. No entanto, minha mãe sempre negava os meus pedidos, dizendo que não podíamos chegar atrasados ao almoço e que, no voo de disco voador, eu poderia até tocar os pisca-piscas do topo da torre, estendendo a mão pela janelinha.


Maria Augusta, já na rua, disse-me então que eu precisava me livrar daquela obsessão e que poderia, se eu quisesse, me apresentar ao Dr. Leubino, o médico psiquiatra que estava cuidando dela.


— Eu não teria dinheiro para pagar um psiquiatra, Maria Augusta. Não vê que eu sou pobre?


— Não seja por isso! Sou membro da aristocracia rural bandeirante. Meu pai é o Visconde de Guaratinguetá, temos dinheiro a dar com rodo.


— Não posso aceitar caridade. Nós apenas nos conhecemos! Não faz sentido você me emprestar dinheiro.


Chegamos ao Largo da Matriz e eu já me preparava para despedir-me dela, quando Maria Augusta me surpreendeu dizendo que queria passar a noite ao meu lado. Claro que já tinha passado várias vezes pela minha cabeça a fantasia de que ela me levaria à sua casa e, por isso, essa declaração me deixou excitado. Ela não era bonita, longe disso, mas o convívio ao longo daquelas semanas começou a gerar efeitos inesperados. Eu estava apaixonado pela loira de olhos pálidos e sem vida.


— Mas seus pais vão deixar eu entrar em sua casa? — perguntei como um bobo.


— Não. Por isso que eu é que vou para a sua casa.


Eu não podia revelar a ela que dormia num banco da praça ou, ultimamente, nem nisso, mas no chão. Pensei numa solução para livrar-me do embaraço: havia um hotel fuleiro chamado Buenos Aires, no bairro do Pari, próximo ao quartel da ROTA. Foi ali que deixei meus suados cinquenta reais e subi com a loira para um quarto minúsculo e com cheiro de creolina — sinal de que, pelo menos, havia sido higienizado.


Naquela noite contei a Maria Augusta um pouco mais dos passeios com a família pela Via Anhanguera:


— Passávamos sempre diante dos jardins da fábrica de molho de tomate Etti. Era a cidade de Cajamar, um nome que sempre me pareceu inadequado. Cajamar devia ser um município no Caminho do Mar, não do interior de São Paulo. E a Etti, para dizer a verdade, nem era uma grande coisa, a verdadeira fábrica de molho de tomate era a Cica, que ficava um pouco além, em Jundiaí, nosso destino nas manhãs de domingo. De qualquer forma, eu gostava de ver os jardins que rodeavam a fábrica, aquele gramado aparado, o laguinho, as plantas ornamentais. Só que minha mãe não deixava nunca a gente parar ali, estava apressada para o almoço no restaurante de Jundiaí e prometia que, depois do voo no disco voador, visitaríamos a fábrica.


— Realmente, você precisa ser consultado pelo Dr. Leubino — disse-me ela, enquanto ligava o Spotify em seu celular. Ao som de Madeleine Peyroux, abriu uma garrafa de vinho francês que trazia na bolsa. Em seguida, se despiu e começou a se esfregar em mim. E foi assim por toda a noite. De manhã, alguém veio bater a porta, pois o período já havia se esgotado. Dei meus últimos cinquenta reais em troca de mais oito horas com a loira e foi assim que perdi meu emprego no Cine Theatro República.


3




Dr. Leubino era um sujeito careca, moreno, de óculos fundo-de-garrafa e barba muito preta. Seu jaleco branco era imundo, todo sujo de ketchup e mostarda na altura da barriga.


— Quero que diga rapidamente quem é e por que veio a este consultório — determinou, com um semblante, digamos, maligno.


Eu, que já estava aborrecido com o fato de voltar a ficar desempregado e, agora, por depender da caridade de uma riquinha do interior de São Paulo, filha de quatrocentões, não conseguia tirar os meus olhos daquelas manchas nojentas no seu jaleco.


— Maria Augusta insistiu para eu vir consulta-lo. Ela acha que sou viciado em discos voadores, mas isso tem uma explicação. Quando era criança, sempre ia com meus pais passear de carro pela Via Anhanguera, mas minha mãe nunca atendia aos meus pedidos, prometia que seriam satisfeitos quando eu embarcasse num disco voador. Por isso eu tenho essa mania.


— Que desejos? Você desejava fornicar com sua mãe?


— Não, Dr. Leubino! Eu queria visitar lugares diferentes. Por exemplo, na beirada da estrada havia uma fábrica de casquinhas de sorvete. Era uma pequena construção e, no alto dela, havia um monumento com a forma de um cone invertido.


— Sei do que está falando. Era a Coniexpress.


— Exatamente, doutor! — respondi, entusiasmado com o compartilhamento de uma lembrança distante. — A Coniexpress havia sido criada pelo Mário e pela Cuca, amigos de meus pais. Eles faziam casquinhas para os sorvete de massa da Kibon, onde meu pai havia trabalhado quando chegou ao Brasil. Então eu pedia para irmos visita-los, apesar de não ter ideia de quem eram. Nunca os tinha visto, mas sabia meus pais gostavam muito deles. Para mim, eram uma espécie dupla de desenho animado e o nome Cuca reforçava ainda mais essa impressão. E então minha mãe vinha cortar o barato: “Ah, mas eles não moram dentro da fábrica, meu filho! Quem sabe eles embarquem no mesmo disco voador que a gente! O importante é não nos atrasarmos para o almoço”.


— E como era esse almoço?


— Era num restaurante perto de Jundiaí, chamava-se Restaurante do Tio Guerino. Era muito famoso, a tal ponto que um dia recebeu o Elvis Presley. Mas eu não estava nem aí com aquele cantor chato. O que importava era o voo. Estacionamos o carro num grande pátio e procuramos uma mesa livre. Enquanto meus pais pediam os pratos, o próprio tio Guerino, um homem vestido com roupas de astronauta, me levou para ver o MK 432, isto é, a nave espacial. Ela estava cuidadosamente pousada sobre o lago, com seus macacos hidráulicos e escadas repousando em suas margens. “Repare como ela pousou corretamente! O piloto é um expert! Para ele, não há segredo nenhum naquilo”. Mas eu lá queria saber de pousos? Meu interesse era a decolagem. Almocei sem nem prestar atenção na comida e na canção do Elvis. Não via a hora de chegar às cinco da tarde, quando a nave partiria.


— Conheço o piloto do MK-432 — disse-me o psiquiatra. — Você gostaria de voar nele?


— É o que mais gostaria, doutor!


— Muito bem, verei se isso é possível. Mas já vou avisando uma coisa: sua amiga Maria Augusta não poderá acompanhá-lo. Ela é minha paciente e está começando a ficar obcecada em fazer companhia com você — isto é, conversar, tomar vinho, ouvir música e, pior do que tudo, fornicar. Além disso, preciso alertá-lo de possível frustração. Está vendo estas manchas de ketchup em meu jaleco?


— Sim, doutor. São o que há de mais conspícuo neste seu consultório.


— Pois bem. Tire da cabeça que você irá comer canudinhos crocantes de sorvete da Coniexpress. Ela mudou de ramo, passou a fabricar o molho de tomate marca Quero. Em seguida, foi vendida para a Etti que, por sua vez, hoje pertence à multinacional Heinz. Este molho que você vê, portanto, é feito de tomate transgênico, com todas as consequências que isso pode trazer para o seu futuro.


Não entendi muito bem o alerta, mas aceitei o convite. Na manhã de domingo, encontrei-me no lugar marcado pelo Dr. Leubino, bem na esquina da rua do Alto da Lapa, onde morei por um ano na infância, e seguimos pela Via Anhanguera rumo ao MK-432. Nunca mais vi a loira do banheiro. Também nunca mais fui ao cinema.


São Paulo, 17 de fevereiro de 2020

Guilherme Purvin é escritor. Graduado em Direito e Letras (USP).

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