• Guilherme Purvin

Entenda o que são algoritmos

Atualizado: Mai 14

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -



Tudo começou quando encontrei o relógio roxinho (de novo!) e confessei minha fobia por máquinas que continuam funcionando além da vida de quem as criou - processos irreversíveis. Essa história está na crônica "Passado Imperfeito". Falei de um episódio do seriado “Lost”: os sobreviventes na ilha encontram um aparelho de rádio que transmite continuamente um sinal inteligível que se modifica a cada momento. Festejam a esperança de que não estão sós, que está havendo um contato externo da humanidade, que finalmente poderão ser resgatados. No entanto, subitamente percebem que aquelas ondas captadas pelo rádio são tão somente a voz automatizada de uma mulher que recita sem cessar as horas que passam. Trata-se de um simples algoritmo. Essa palavrinha, algoritmo, entrou no vocabulário político há pouco tempo. Os juristas ainda sentem uma certa dificuldade para pronunciá-la. Há um mês, um palestrante procurava impressionar o auditório numa videoconferência com o uso do termo e repetia a palavra “algaritmo”, com “A”. Tanto faz, algoritmo, algaritmo ou algo rítmico. A ideia tem mesmo a ver com ritmos e algarismos. Comecei a me familiarizar com esse conceito em 1986, quando comprei um computador MSX 8 Bits – o Hotbit da Sharp. Para aqueles tempos, tratava-se de um brinquedo sofisticadíssimo, aparelho que permitia conjugar a um só tempo uma calculadora eletrônica, uma máquina de escrever, uma planilha contábil, um caderno de desenhos para rabiscar. Não tinha, porém, um “mouse” nem HD. Tudo tinha que ser digitado e gravado numa fita cassete.


Para começar a ver e ouvir as maravilhas prometidas pelo MSX, tive que aprender linguagem BASIC. BASIC não é tradução de “básico”, é uma sigla = Beginners All Purpose Symbolic Instruction Code. Trata-se de uma sequência elementar de instruções que passamos para que o computador faça alguma tarefa. Ou seja, algoritmos que o computador obedecerá, sem questionar seu uso. Para compreender o funcionamento da transmissão de rádio do exemplo que utilizei naquela crônica, eu precisaria digitar, linha por linha, alguns comandos em linguagem BASIC que teriam mais ou menos este jeito:

01 . A = 8; B = 2; C = 12; D = Maio > O comando da linha 1 informa ao computador que a variável "A" indicará as horas (são 8 horas), a "B os minutos, a C os dias e a D os meses.


' SUB-ROTINA PARA REGISTRAR OS SEGUNDOS

02. FOR X = 1 TO 60

> O comando da linha 02 determina ao computador que faça determinada coisa por 60 vezes


03. DIGA “São” A “horas” “e” “B” “minutos” “do dia” “C” de “D”

> O comando determina que se substitua a variável pelo dado armazenado. O resultado será uma mensagem dizendo (só a primeira vez): "São 8 horas e 2 minutos do dia 12 de maio".

04. AGUARDE POR UM SEGUNDO > O comando determina que o processador permaneça, durante um tempo sem realizar nenhuma tarefa (claro, este período não pode ser tão curto quanto um segundo, caso contrário a voz teria que enunciar o horário de forma mais rápida do que a frase "este medicamento é contraindicado em caso de suspeita de dengue").


05. B = B+1; IF B = 59 THEN B = 0

> Esta instrução determina que o computador acrescente uma unidade à variável B, que representa os segundos. Como, na primeira passagem, B era igual a 2 (linha 01), a partir de agora será 2+1, ou seja, 3. No entanto, quando a variável B chegar ao número 59, passará a ser zero.


06. X = X+1 : NEXT

> Esta instrução determina ao computador que aumente em uma unidade a variável X. "Next" significa, na prática = volte para a linha 2 e faça tudo de novo. Ela se repetirá por sessenta vezes, até que seja concluída a subrotina da contagem dos segundos.


Poupo quem generosamente lê minhas crônicas de um insuportável prosseguimento destas explicações sobre linguagem BASIC. Teria que explicar, por exemplo, que os comandos que integram a sub-rotina da contagem dos segundos precisam ficar inseridos no roteiro da sub-rotina da contagem dos minutos; e a sub-rotina dos minutos, na sub-rotina da contagem das horas, e assim por diante. Ademais, quando chegamos à contagem dos meses, será preciso estabelecer as regras: alguns meses têm 31 dias e outros têm 30. O mês de fevereiro tem 28 dias, mas uma vez a cada quatro tem 29.

Paro por aqui, deixando de lado mais uma centena de comandos que precisariam ser apresentados ao computador, porque a intenção não é explicar o funcionamento do algoritmo imaginado na cena de Lost, mas de explicar a razão do horror a tudo o que o homem construiu para fins de controle e dominação, tudo o que foge à argumentação, tudo o que foge ao amor e à empatia.


Programar o funcionamento do que quer que seja é algo extremamente trabalhoso e que exige uma atenção profunda. No entanto, em essência, tudo não passa de uma rotina, dentro da qual cabe uma grande variedade de sub-rotinas. Jung, aliás, entendia que a Astrologia não é desprovida de qualquer cientificidade, justamente porque tem como regra a observação dos comportamentos humanos nos ciclos astronômicos. Como asseverar que são inócuas as projeções das forças cósmicas em combinações específicas? O Universo obedeceria, assim, a um algoritmo extremamente complexo. Deficiências da Astrologia não decorreriam da sua inutilidade, mas da incapacidade humana em detectar os efeitos destas combinações cíclicas nas posições dos astros.


Quando você está conversando e ocupando as mãos com as agulhas de tricô, tecendo um cachecol para se aquecer nesta temporada de confinamento, preste atenção em cada pequeno movimento que faz e no resultado desses gestos – o novelo sendo aos poucos desenrolado e, do outro lado, surgindo magicamente a peça de lã. As suas mãos realizam um algoritmo, uma série de comandos foram emitidos pelo seu cérebro para as suas mãos. Quando o frio do outono e do inverno acabar, é bem possível que você já não tenha tanto interesse em ocupar suas mãos com as agulhas e a lã. Neste momento, porém, ocupar-se com algo que pode ser útil para você ou para as pessoas à sua volta, é algo que lhe traz certa satisfação.


As máquinas de costura também realizam uma série de movimentos mecânicos para fazer algo parecido com o que as suas mãos fizeram. Sempre achei extremamente difícil compreender como é que a linha na agulha da máquina elétrica consegue atravessar o pano e sair num outro ponto, sem que a agulha realize outro movimento perceptível que não o de subir e descer sobre o pano que está sendo costurado. Mas a complexidade de um algoritmo pode sempre ser explicada e, para quem quiser, basta pesquisar no Youtube e encontrará pelo menos uma dúzia de vídeos detalhando cada passo. A única diferença prática entre fazer um cachecol ou costurar uma máscara está no fato de que, se o motor elétrico fundir, será muito difícil fazê-lo voltar a funcionar a partir de nosso próprio esforço, ao menos nestes tempos de pandemia.


“A Invenção de Morel”, de Adolfo Bioy Casares, romance a que me referi também em outra crônica, é igualmente um algoritmo desesperador: a projeção tridimensional de um dia determinado, numa ilha qualquer (pode ser em Marienbad também, como propôs Alain Resnais no filme inspirado na obra de Bioy Casares), projeção esta que se repete a cada manhã e que jamais se modificará enquanto a máquina não for desligada.


A permanência num confinamento que já dura dois meses me leva a prestar a atenção em certas rotinas e sub-rotinas que posso ou não adotar.


No dia em que perdi o computador onde guardava centenas de projetos literários – dois novos romances e dois livros de contos, uma nova edição do Curso de Direito Ambiental, uma coletânea de ensaios sobre ecocrítica literária – aconteceu algo curioso: um ovo se espatifou no chão.


Não sei como isso aconteceu, foi como se ele tivesse saltado de moto próprio da geladeira, só para me aborrecer com a limpeza do chão da cozinha. Pois limpar um ovo que espatifa na cozinha é uma tarefa que não traz a mesma satisfação do que, por exemplo tecer um cachecol ou, diante do mar em Paraty, tecer uma rede de pesca do jeito que o guarda-camping (que não é Roberto Bolaños) ensinou. Por outro lado, devo ser grato à vida por não transformar a quebra de ovos e a faxina subsequente numa subrotina diária dentro da rotina desta quarentena.


Assim que terminei de limpar a cozinha e de me lavar, decidi ligar o computador para prosseguir em meus projetos literários. Foi então que aconteceu do computador parar de funcionar. Todas as rotinas e subrotinas, todos os algoritmos que ele guardava em sua unidade de processamento de dados, foram inúteis: ele não conseguia corrigir algum erro que acontecia em seu interior e, por isso, nem sequer alcançava a plataforma Windows.


Pensei então no ovo que se partira há pouco. Um ovo é um símbolo muito forte. Pensei na forma de pensar dos xamãs. Lembrei-me de Davi Kopenawa palestrando em Paraty. É preciso começar algo novo, do zero, “ab ovo”. Adotar uma nova rotina e, dentro dela, algumas sub-rotinas, como estudar Italiano, ver os filmes do Belas Artes que estão sendo oferecidos em streaming, caminhar 6 mil passos e escrever uma crônica por dia, até o dia em que a necropolítica seja julgada (dentro dos algoritmos estabelecidos pela Constituição e pelas Leis) e condenada pelas milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas pela simples adoção de rotinas e sub-rotinas recomendadas pela OMS.

Guilherme Purvin é uma subrotina no Planeta Terra na qual foi inserido o comando RANDOM numa das linhas.

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