• Guilherme Purvin

Manual de adaptação às alterações cadastrais inadvertidas

- Guilherme Purvin -

CONTAMINAÇÃO


Altino percebeu que algo havia acontecido quando Rose afirmou que Verinha entrava na Estação Fradique do Metrô e, passados 45 minutos, nada dela aparecer. O momento exato em que os dados foram embaralhados ele não poderia precisar, mas certamente havia sido nesse intervalo de tempo. Perguntou novamente:


“Rose, onde está Verinha?”.


“Acesso a informação não autorizado”.


Surpreso, ligou a TV. Os noticiários eram contraditórios: o impossível havia acontecido no sistema FD. O programa de identificação havia sido desenvolvido pela polícia de modo a impedir qualquer tentativa de mudança. Algo tão perfeito e seguro que sequer previa a possibilidade de correção.


Altino saiu para a rua. Iria procurar pessoalmente sua esposa onde a máquina havia dito, na Estação Fradique da Linha Amarela. Voltou a pé para casa, duas da madrugada, mas foi negado acesso na portaria. Olhou para o celular. O número era diferente. No WhatsApp, o nome que agora aparecia em seu aparelho era “Rogério”, mas a foto era a sua. Chamou o Uber.



DIAGNÓSTICO


Nunca se repetia o motorista do Uber que o vinha buscar na loja onde agora trabalhava como balconista.


— Senhor Rogério? — perguntou.


— Não. Quer dizer, sim! Sou eu, Rogério.


Não se acostumava com o novo nome. O motorista destravou a porta e Altino sentou-se no banco da frente.


—Eu era engenheiro químico — disse o motorista. — Meu nome era Herman. Agora sou Paulo Affonso. Passei a vida dentro de laboratórios químicos. Morava em Betim. Agora estou aqui. Minha ex-mulher, professora de geologia, agora é costureira e mora em Olinda. Ainda estou atordoado.


— Todos estamos — respondeu Altino.


Era médico e, de quatro meses para cá, foi transformado em vendedor de loja de celular. Ao menos continuava morando em São Paulo, só havia mudado de casa e de profissão. Verinha, sua mulher, agora era frentista de um posto de gasolina em Jundiaí. A distância era curta, uma hora de São Paulo. E se ela tivesse ido para Olinda, como a mulher do motorista? Era uma pessoa de sorte. O motorista continuou a puxar assunto:


— Que fim será que levou o antigo motorista deste carro? Achei uma foto, deve ser ele com a esposa. Veja — disse, estendendo a mão com a foto para Altino.


Era uma dessas fotos do século passado, impressas em cartolina brilhante: um rapaz abraçado a uma moça tendo ao fundo uma pequena queda d’água. O Véu da Noiva, em Campos do Jordão.


—Não acredito que seja o motorista anterior — opinou Altino. — É uma foto muito velha. Talvez um passageiro a tenha perdido numa corrida.


— Tem razão, é uma hipótese mais provável.


O motorista guardou a foto no porta-luvas.


Altino desceu diante de um velho prédio do bairro do Bixiga. O portão abriu-se automaticamente. Cumprimentou o porteiro mal encarado. Entrou no elevador. Desceu no 13º andar. Apanhou a chave do apartamento 133.



TRATAMENTO


— Boa noite, Regina — disse, sem olhar para a moça de 22 anos que via TV.


— Meu nome não é Regina. Sua displicência é proposital? Ou é senil a ponto de não conseguir decorar meu nome?


— Está bem, Bruna. Acabei de chegar. Não estou disposto a discutir.


— Meu nome é Francisca. Você me conheceu como Francisca!


Ele não queria saber quem era a sua “nova esposa”, a garota com que compartilhava a cama há quatro meses. Tinha medo de perder o último elo com o passado. Nos primeiros dias foi constrangedor. Estava casado com Verinha há mais de 35 anos, nunca teve nenhuma aventura extraconjugal. Bem, na verdade, teve uma. Noite de bebedeira, esposa em viagem na cidade dos pais. Solidão. Foi a um bar da Vila Mariana. Nada mais, nem sabia o nome da pessoa. Paula? Alguns beijos dentro do carro, carícias, toques. Talvez Hortência. Tinha nome de jogadora de vôlei. Ou seria de basquete? Tentava apagar a lembrança. Não haveria de se envolver com aquela menina da idade de sua filha Regina.


Bruna ou, como ela preferia, Francisca deitava-se de jeans e camiseta. Só tirava o tênis e as meias. Ficava virada para os pés da cama, desde o primeiro dia, quando tentaram resolver o problema. O apartamento era minúsculo, uma quitinete de 30 metros quadrados, um sofá para duas pessoas, TV, mesa de cozinha com dois banquinhos e a cama de casal. Ninguém estava disposto a abrir mão do conforto para dormir no chão. Bruna (Francisca) logo percebeu que Altino não era o tipo que a atacaria. Mas agora já haviam se passado quatro meses e ela começava a olhar para aquele homem de um jeito diferente. Fazia calor e os dois estavam agitados.


— Desculpa pelo comentário sobre sua idade, Rogério.


— Não me importo — respondeu Altino, secamente.


— Pode conversar um pouco comigo? — ela pediu, cautelosa.


— Claro.


— Não acha que isto está ficando meio angustiante? Oficialmente, somos casados! Não sei se na sua idade você ainda tem desejo sexual... — Altino tossiu. — Desculpe! De novo falei sobre sua idade! Eu sou uma idiota!


— Não me importo. Fale o que quiser.


Altino tentava desviar o pensamento. Não queria ouvir as reclamações de sua nova esposa oficial. Lembrou-se de um episódio prosaico, quando comprou o apartamento onde morou com Verinha e de onde havia sido expulso há quatro meses. O vendedor chamava-se Lindolfo Cappaz e a primeira providência que Altino tomou foi comunicar a compra do imóvel à prefeitura, para que fosse alterado o nome lançado nos impostos. Nos três anos seguintes, recebeu os boletos em seu nome; no quarto, porém, o nome Lindolfo Cappaz voltou a figurar como proprietário no carnê. Talvez os arquivos atualizados da prefeitura tivessem sido inadvertidamente apagados e o último backup fosse anterior à sua compra. Fato é que não conseguira corrigir o erro sem ter que pagar uma injusta multa por atraso na comunicação da mudança de proprietário.


Bruna puxou-o de volta ao presente.


— Você está me ouvindo, Rogério? Vamos ficar sempre assim?


— Assim como? Morando neste cubículo?


— Fazendo de conta que não temos desejo sexual?


— Bruna, entenda: eu amo Verinha, a minha esposa.


— Não me chame de Bruna. Bruna é passado, Bruna herdou o meu emprego, a minha conta corrente, o meu carro. Eu sou Francisca agora! Por favor, Francisca! E você é Rogério.


— Não sei quem foi Rogério. Mas lembro-me da infância de Altino, de sua juventude, do dia em que conheceu Verinha. E, quando vejo o FD desse Rogério, só posso dizer que no dia em que ele nasceu, eu estava viajando com Verinha, era nossa lua de mel.


— No começo eu achava errado também. Tinha horror à ideia de vir a transar com um desconhecido. Há quatro meses, quando fomos obrigados a vir para este apartamento, eu estava assustada com tudo. Havia sido impedida de entrar em minha casa, no Rio de Janeiro. O meu cartão de crédito foi bloqueado. O meu emprego não era mais na secretaria da universidade. Tive que apanhar minhas roupas e vir com o dinheiro que ainda tinha no bolso para São Paulo. Para simplesmente morar numa quitinete, fazendo o papel de mulher que assiste a novelas e prepara o jantar para o marido. Ainda estamos tateando, tentando descobrir os passos de nossos antepassados, dos antigos donos dos nomes Francisca e Rogério, mas acho que estamos indo bem. Você é meu marido. E, nesse papel, tenho que aceitar que a frentista do posto de gasolina de Jundiaí é a amante do meu marido. Por isso, há quatro meses não temos nenhuma relação sexual.


— Verinha não é minha amante. E eu agradeceria se não representássemos esses papéis. Pelo menos não aqui, entre quatro paredes. Você é Bruna, poderia ser amiga de minha filha Regina. Eu sou Altino, tudo o que sei fazer direito é exercer a medicina, mas estou impedido temporariamente. Respondendo à sua pergunta, é claro que na minha idade ainda tenho desejo sexual. É claro que, intimamente, ao longo destes quatro meses em que estamos convivendo, já me perguntei: qual é o problema se a gente transar uma vez? Ou eu acho que Verinha vai acreditar que ainda sou fiel a ela? São perguntas cínicas que me faço, é um passo para aderir à lógica que o Estado quer nos impor. Seria muito cômodo e hipócrita tentar seduzi-la. Eu saberia fazer isso. Não se se seria bem sucedido, mas conheço a estratégia. Tenho amigos que dariam tudo para trocar de papel comigo, para encarnarem esse tal de Rogério, que foi premiado com uma garota bonita e simpática como você. Homens de minha idade são loucos por meninas mais novas.


— Está bem, Rogério. Já entendi. Vamos então mudar de assunto. Sobre o que quer conversar?


— Quem quer conversar é você, Bruna.


— Francisca.


A menina ergueu-se na cama e sentou-se na cabeceira, ao lado de Altino.


— Então vamos falar de um assunto que você deve entender, já que é muito mais experiente do que eu.


— Tudo o que aprendi nos últimos meses foram as características dos vários modelos de celular. Tenho medo de vir a me esquecer do que sabia sobre medicina.


— Não vou falar sobre medicina nem sobre celular, não se preocupe. Quero só um aconselhamento, que me explique o que devo fazer com uma confusão que aconteceu há mais de um ano. Foi assim, eu tinha contratado um serviço de streaming porque o primeiro mês era grátis. Quando completou um mês, fiz o cancelamento. No entanto, o registro do cancelamento foi acidentalmente apagado pela empresa. Eu fui reclamar, mas me disseram que não havia como contornar esse tipo de problema. Para eles, constava que o contrato havia sido prorrogado automaticamente por dois anos e que eu só poderia cancelar se pagasse multa de 20% sobre o valor dos meses restantes. Ou seja, eu teria que pagar uma nota por algo que não contratei! O que eu faço?


— Não há o que fazer. O jeito é conviver com os problemas. Antigamente, as pessoas morriam até de catapora. Era inevitável, não havia vacinas. Temos de nos adaptar às doenças de cada tempo, aceitar os erros de informática como doenças contraídas socialmente, das quais não temos ainda vacinas.

Altino lembrou-se do dia em que anunciaram que todos os rostos seriam monitorados nas estações de metrô, por razões de segurança, as incontáveis câmeras espalhadas no interior dos vagões, plataformas e corredores, enviando em fração de segundos os dados para um computador central que se incumbia de identificar a pessoa e a comparar o tipo físico com as imagens disponíveis nos arquivos da polícia federal, da polícia civil e da alfândega. A polícia recebia em tempo real a localização da pessoa e, se ela estivesse sendo procurada, em poucos minutos já seria presa. Isso melhorou muito a segurança dentro do metrô, diziam todos. Ninguém percebia que aquilo era o primeiro passo, ou melhor, era mais um passo rumo ao controle completo da privacidade. Os dados eram colhidos de todas as pessoas, não só de ladrões. A polícia ficava sabendo por onde eu passava, a que horas e com que roupa. Quem não deve, não teme, diziam. Da identificação visual no metrô, passou-se à identificação também nas ruas. Cada câmera de vigilância de edifício passou a alimentar os sistemas de informática da polícia e da companhia de metrô. Em seguida, foi a vez dos bancos e estabelecimentos comerciais aderirem ao sistema: não correriam o risco de vender um produto a alguém com um cartão de crédito furtado ou clonado, pois a caixa registradora compararia os dados do cartão com aquela coisa que a polícia chama de FD, os tais dados fenotípicos.


Olhou para o lado e viu que Bruna estava dormindo ao seu lado. Era bonita aquela menina, tão parecida com sua filha Regina! O que Verinha estaria fazendo neste instante? Seu nome havia sido alterado para Cláudia. Estava casada com um tal de Mário, dono de uma fábrica de casquinhas de sorvete. No começo, quando conseguiram se reencontrar e trocaram números de telefone, ela falava muito desse estranho. Agora, não mencionava mais seu nome. Bruna despertou assustada.


— Eu caí no sono! Me desculpe! O que foi que você disse?


— Eu disse que não tem a menor importância se a empresa aplicou uma multa ou não. Quem foi lesada foi a Bruna e não a Francisca. Quem terá que pagar a multa será a pessoa a quem foi reservado o papel de assumir a condição de Bruna. E também percebi que sou ótimo para acabar com a insônia de uma mulher.


Bruna riu e foi ao banheiro. Altino ouviu o ruído do chuveiro. Altino não parava de pensar na nova legislação em vigor no país, impondo ao Estado o dever de compartilhar todos os dados disponíveis sobre os cidadãos com a iniciativa privada. Todos os bancos de dados reunidos numa única base. Um indivíduo, um único documento – o “FD”. Altino recebera o seu pelo correio, pelo celular e por e-mail. Nada de papel, apenas um número enorme, 24 dígitos. Era o fim da burocracia. E a novidade não era apenas essa. Doravante, bastava deixar seu rosto à mostra diante da câmera — do computador, do celular, dos postes nas ruas por onde andava. Não precisaria de mais nada. Nada de formulários, nada de senhas! Por alguns meses, tudo funcionou maravilhosamente bem. Ele chegava a sua casa uma hora antes de Verinha. As câmeras do edifício colhiam dados sobre seu rosto, sua íris, sua estatura, sua forma de caminhar, sua postura corporal. Em seguida abriam-se as portas sem necessidade de porteiro. Em casa, “Rose” era acionada por um comando de voz. “Rose” era um novo aplicativo de gerenciamento doméstico. Haviam escolhido esse nome em homenagem a uma personagem de um antigo desenho animado – Os Jetsons. “Rose, ligue a TV”. “Pois não, Altino” — e a TV era ligada. “Rose, onde está a Verinha?” — perguntava, querendo saber se já devia aquecer o jantar. “Verinha acaba de passar pela catraca da Estação Fradique do Metrô Linha Amarela, Altino. Quer saber a que hora ela chegará?”. “Sim, Rose”. “Previsão de chegada em 38 minutos, Altino”.



ADAPTAÇÃO


Bruna voltou ao quarto. Altino sentiu o perfume do sabonete. Seus cabelos estavam úmidos. Oficialmente ela era Francisca, casada com Rogério. E ele, de acordo com o FD embaralhado, voltara a ter 29 anos de idade. Olhava para o espelho e sabia que não tinha 29 anos, seu corpo, suas memórias, sua pele, tudo negava esse dado. Tinha duas opções: afirmar que não era Rogério ou aceitar que Rogério apresentava claros sintomas da síndrome de Hutchinson-Gilford: envelhecimento acelerado. Certas coisas são inevitáveis.


— Tire isso da cabeça! Eu não vou trepar com você!


— O que você disse, Altino? — era a primeira vez que Bruna o chamava espontaneamente pelo nome antigo.


— Não, eu não acho você feia. Pelo contrário! E você está certa, oficialmente Verinha é minha amante. Eu sou um homem, estamos há quatro meses dormindo na mesma cama! O que eu espero? Eu espero o mesmo que todos no país: que a situação seja corrigida, que os dados sejam corrigidos.


— Fique calmo. Altino — disse Bruna, acariciando delicadamente os cabelos de seu companheiro de quarto. Tudo será corrigido.


— Corrigido, Francisca? Você sabe que nada voltará a ser como era antes! Eu não voltarei jamais a ser Altino! Você não voltará a ser Bruna! Os dados estão perdidos e ninguém pode modificar o sistema. Somos os moradores do apartamento 133. Somos o que o Estado disser que somos.


À noite, Altino sonhou com a viagem para Campos do Jordão com Verinha. Tinham 29 anos de idade, como na foto que o motorista guardou no porta-luvas.

São Paulo, 13 de janeiro de 2020



Cachoeira do Véu de Noiva - Campos do Jordão

Guilherme José Purvin de Figueiredo é escritor. Graduado em Direito e Letras pela USP. Contato: gpurvin@gmail.com.

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