• Guilherme Purvin

Neutrinos de Tarkovsky

Guilherme José Purvin de Figueiredo



Para Fernando Walcacer


Quando era criança, eu imaginava o Sr. Massao Hata indo dar aulas para mim e para os meus colegas na Escola Amaro Peixoto, no Largo do Machado. Massao Hata era o nome do personagem de um seriado de TV, identidade secreta de um poderoso super-herói, Nacional Kid, capaz de voar e de lutar contra os incas venusianos. Mas Tóquio era distante demais de minha casa e o Rio de Janeiro não tinha nenhum herói para defender o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, a Pedra da Gávea. O que seria de nós diante de um ataque alienígena?


Em janeiro de 1966, o Rio ficou debaixo de um imenso temporal. As chuvas provocaram desmoronamentos, as ruas foram tomadas pelas águas e, ao final de cinco dias, contavam-se 250 mortos e milhares de desabrigados, tudo isso sem que o herói japonês tivesse se dignado a aparecer em minha cidade. As lembranças da enchente nunca foram embora. Aos quarenta anos, depois de muita meditação nas intermináveis filas de entrevista, conheci um senhor muito distinto, que tomava café num bar da Carioca. Lembro-me de estar lamentando com o balconista o meu desemprego. O homem entrou na conversa e perguntou o que eu sabia fazer.


— Sei fazer de tudo, doutor. Sou malabarista, ator de cinema, eletricista, pintor de parede, carpinteiro, faço funilaria de automóvel. Sei até falar inglês, que aprendi com a dona Stella, minha professora.


Dr. Peixoto – esse era o seu nome, e eu logo pensei que isso era um sinal: devia ser herdeiro de Amaro Peixoto, patrono da minha escola – me passou seu endereço e pediu para fazer o orçamento de um servicinho, derrubar uma parede aqui, erguer outra ali, na sua cobertura duplex duma rua entre a Oswaldo Cruz e a Senador Vergueiro.


Gente finíssima, quando cheguei lá, o doutor me ofereceu uísque e cigarro. Dr. Peixoto estava mais interessado em fazer uma festa do que propriamente em obter um orçamento. Era acompanhado da dona Elizabeth, uma morena escultural, mas eu me interessei mesmo pela loirinha que estava lá quebrando um galho como cozinheira. Conversa vai, conversa vem, ela me contou que se chamava Vanusa. Era costureira e às vezes buscava reforçar a renda trabalhando como cozinheira.


— Seu Nacional, se eu entrasse para a vida política, o senhor votava no Peixoto? — perguntou a morenaça.


— Não só votava como ia ser seu cabo eleitoral, doutora.


A mulher riu, jogando os cabelos para trás e dando uma tragada num baseado.


— Viu só, querido! Você tem jeito pra coisa! Entra pra um partido! Vamos lutar por um Brasil melhor!


Acabei ficando amigo do doutor e, de quebra, me enrosquei com a Vanusa. Volta e meia o Dr. Peixoto me chamava para um servicinho e até que me pagava bem nessas vezes. Na maior parte do tempo, porém, eu voltava pra casa sem dinheiro. Certa manhã, depois de haver dormido na casa da Vanusa, contei a ela a história do meu apelido – Nacional Kid. Vanusa, até então, achava que era meu nome verdadeiro e ficou maravilhada com o meu sonho de infância. No dia do meu aniversário, me deu de presente o uniforme do super-herói japonês, um collant com uma linda capa esvoaçante, a letra “N” bordada nas costas, além de um capacete de pedreiro que ela, toda jeitosa, transformou em algo praticamente idêntico ao original, colando no alto uma tira triangular de acrílico e colocando uma bolinha de isopor na ponta.


Entrei para o ramo do entretenimento, minha intenção era alegrar as festas de crianças com a fantasia de meu herói. Acontece que ninguém mais sabia quem era ele. Só falavam em Jaspion, Esquadrão Relâmpago Changemen, Jiraya, Power Rangers, Jiban, Cyber Cops. Mas eu permaneceria sempre fiel ao meu ídolo. Deixava meu cartão no São Bento, no centro, ia para o Catete e deixava no Zacarias, depois no Liceu Franco Brasileiro, em Laranjeiras ou no Santo Inácio, em Botafogo, colégios de gente endinheirada, mas na prática só arranjava serviço na vizinhança, em troca de bolo, refrigerante e cachorro-quente. Meu sonho era um dia estrelar num filme: chegaria voando pelos céus, a baía da Guanabara abaixo de mim, e alcançaria o bondinho do Pão de Açúcar no momento em que um monstro estivesse prestes a arrebentar o cabo na plataforma da Urca. Agarrado nas ferragens, a capa balançando ao vento em minhas costas, eu desceria o bondinho com segurança nas areias da Praia Vermelha e daria um beijo de Hollywood em Vanusa.


O tempo passou, continuei vivendo de bicos, mas não vi mais o Dr. Peixoto. Um dia bateu uma saudade, não tinha nada pra fazer, resolvi subir até o Pão de Açúcar com o velho uniforme. Entrei na fila dos turistas e gastei o que nem tinha pra pagar o ingresso. Tinha descoberto que Vanusa trabalhava por ali. A gente nunca rompeu o relacionamento, então era aquele rolo, renovável a cada seis meses ou um ano. Mas agora fazia uns dez anos que a gente não se via. Continuava loira e fogosa, só que agora com cinquenta anos, os olhos radiantes. Dei-lhe um beijo rápido de surpresa e ela sorriu. Meus beijos continuavam irresistíveis, mesmo depois de tantos anos a serviço secreto da pátria. Ela me perguntou por onde eu havia andado nos últimos tempos.


— Você quer mesmo saber ou está perguntando por perguntar?


— Ah, Nacional, você é quem decide. O que eu quero mesmo é que você me dê outro beijo, mas só quando sairmos daqui. Veja os turistas, estão todos olhando para a gente. Essa sua fantasia está meio apertada...


Nacional. Era disso que eu gostava. Que ela continuasse me tratando assim. Pelo meu nome popular. Eu não era o Dr. Massao Hata, mas não queria que ninguém soubesse a minha verdadeira identidade.


O que Vanusa diria se eu tivesse pulado do alto do Pão de Açúcar, me agarrado aos cabos e entrado de jeito heroico, num misto de Nacional Kid e James Bond? Ah, Vanusa, quantos sonhos jamais realizados! Ela também teria os seus, pensei eu. Seu sonho era ser modista, Coco Chanel, Dener, Clodovil.


— Seus olhos estão mais brilhantes. Deve estar passando por momentos bons nos últimos anos.


— Ah, isso? Fiz operação de catarata. Estou agora enxergando o mundo como ele é. Agora vejo rugas, escaras, cicatrizes. Mas não posso reclamar da paisagem. O Rio de Janeiro continua lindo, Nacional.


Sorri e acendi um cigarro. Ela reclamou:


— Não está vendo a placa de proibido fumar? Quer me fazer perder o emprego, é?


Apaguei e recoloquei a bituca no maço. Ela percebeu meu gesto e, depois de um muxoxo de desprezo, comentou:


— Pobreza... Guardar cigarro que já foi aceso é coisa que não faço desde que saí da adolescência.


— Pois para mim é uma questão ecológica, Vanusa.


Chegamos ao final da escala. Marcamos de nos encontrar na saída de seu expediente E fiquei posando para fotos com uns turistas na Praia Vermelha. Elas vinham me perguntar se eu era o Chapolim. Dois reais a foto, cobrei. Me deram uma nota de dois euros. Foi assim que decidi fazer ponto ali, posando para os turistas. Às vezes levava um calote, mas isso era compensado largamente quando um turista bolado pedia pra tirar várias poses e me dava até dez dólares.


Verdade, meus verdadeiros fãs eram adultos. As crianças nem imaginavam quem fosse Nacional Kid. Nem no Japão se fazia mais aquela pilha elétrica que patrocinava o programa do super-herói.

Às seis da tarde, Vanusa rendeu o ponto e propôs uma cerveja no Amarelinho. Guardei a fantasia na mochila e fui vestido de gente normal. Gastaria tudo o que ganhei no dia se, a cada copo, a loira parecesse mais jovem e sensual e seus olhos, duas candeias prestes a me incendiar.


O Amarelinho fica na Cinelândia, esquina da Alcindo Guanabara com a Praça Floriano. Tem alguma coisa lá que não coincide nunca, minha conta dos copos bebidos com a conta feita pelo garçom. E foi assim, pedimos dois, depois mais dois, quatro, mais dois, seis, oito, dez, aí me distraí com a contagem, mas não pensei que fossem mais do que vinte. Calcularam trinta e seis. Não sou de criar caso e, de qualquer forma, a Vanusa colaborou pagando a parte dela e mais metade da minha. Saímos de lá cambaleantes e fomos andando a esmo pelo Aterro do Flamengo. A fantasia pesava nas costas e eu continuava ansioso por alguma aventura menos óbvia. Expus as minhas preocupações filosóficas:


— Vi um dia desses um filme velho chamado Solaris. É russo, tem na internet. Falava de uma região no espaço onde os sonhos e lembranças adquiriam consistência material. Matéria composta de neutrinos. Coisa de intelectual. Todos queremos voltar ao útero materno.


Vanusa olhou-me com estranheza:


— Você fica vendo útero na internet?


— Você não entendeu. Não quero passar o resto de minha vida vestido de palhaço. Não nasci para ser ator de circo, sabe? Tenho minhas próprias ideias sobre o mundo. Você sabe do que é feita a matéria?


— Que matéria, Nacional?


— Qualquer matéria! Estou falando do mundo material, sensível. Se você não sabe, vou lhe explicar. Somos feitos de átomos, mas até aí nada de novidade. A questão é saber do que são feitos os átomos, o que são os prótons, os elétrons, os nêutrons e os neutrinos.


— Você é muito inteligente, aumenta meu tesão. Não vai me levar pra sua casa?


Era sempre assim. Esse tipo de displicência me desmotivava, por isso esses intervalos semestrais. A loira do bondinho do Pão de Açúcar era igual a qualquer outra mulher que já passou em minha vida. A minha completude era a miragem de uma pista molhada numa estrada de asfalto seco em dia de sol. Por que achei que, vestido de super-herói, a coisa seria diferente? Não teria sido melhor ficar em Duque de Caxias, fazendo bico numa oficina mecânica? Ou, quem sabe, buscar nova vida em São Paulo, em Belo Horizonte? Cada reencontro com o passado era um banho gelado. Ou melhor, cada encontro com a realidade era uma volta ao passado. Comecei a cantarolar a canção infantil que abria cada episódio do Nacional Kid. Mesmo bêbada, Vanusa se encheu de meu papo furado, deu uma desculpa incompreensível e foi embora. Não esbocei qualquer reação para evitar sua saída inesperada. Limitei-me a acompanhar com os olhos seus passos cambaleantes rumo ao ponto de ônibus.


Logo me desinteressei dela e fui sentar sobre a grama do aterro, de frente para uma quadra de esportes onde uns marmanjos batiam uma bola. Quando um dos times marcou um gol, o goleiro vazado, um gordo de setenta anos, olhou para mim e gritou:


— Nacional, é você mesmo?


Levei um susto e logo reconheci o sujeito. Era o meu velho amigo Dr. Peixoto! Cheguei a acompanhar a sua trajetória, foi vereador várias vezes, depois deputado estadual. Aí a carreira degringolou, foi cassado, acusado de corrupção, por pouco não pega uma prisão, a pena prescreveu. Isso não tinha importância nenhuma: para mim, ele sempre seria o velho amigo dos tempos de aperto. Seus olhos brilhavam como os de Vanusa.


— Excelência! É o senhor?


O goleiro abandonou o jogo, sob o protesto dos amigos que tiveram que refazer a equipe, desfalcando um jogador da defesa.


— Nacional! Pelo visto, você também se ferrou! Todo mal vestido, sujo e com essa mochila fedorenta nas costas!


— É, excelência, mas nunca tive nada na vida, nem uma mansão nem uma mulher linda como a Dona Gretchen. Continua com ela?


— Caramba, sua memória é de elefante! Nem me lembrava mais da existência dela. Depois da cassação e da condenação penal, nunca mais vi dela. Só que o nome dela não era Gretchen, era Margareth. Talvez nem esteja mais viva, aquela vagabunda.


Fiquei quieto. Ela, realmente, era meio devassa e não respeitava o marido nem em sua própria casa. Lembrei-me do episódio da escova de dente, quando fui visitar o deputado há muitos anos e ela me atendeu de biquíni.


— Mulher é tudo igual, excelência.

— Não é preciso me chamar de excelência, Nacional. Faz muito tempo que larguei a vida parlamentar. Agora fico por aqui mesmo, sobrevivi de pequenos golpes, mas fiquei velho demais para isso. Levava a vida comprando fios furtados de postes elétricos. Hoje faço só uns servicinhos para a comunidade, sabe? A pacificação no começo deu o que falar, mas tudo voltou ao normal. Trabalho mais em porta de escola, principalmente pros lados do Jardim Botânico. Com isso, dá pra tirar o suficiente pra ter uma vida com dignidade. E você, o que tem feito?


— Ah, nada de muito promissor, excelência. Poso para fotos com a fantasia, mas a grana é curta. Estou já meio cansado dessa vida material.


O ex-deputado ficou curioso.


— Vida material? Você se refere à substância material ou virou evangélico?


— Que evangélico, excelência! Estou falando de neutrinos, mésons, de partículas subatômicas!


— Hum. Isso me interessa! Andou lendo a teoria da relatividade?


— Já passei dessa fase, Dr. Peixoto. O senhor também pensa nisso?


— Em neutrinos? Em materialização de nossos desejos? A todo instante! É o que me faz continuar nessa vida e me motiva a bater uma bola no fim de tarde. Não gostaria de voltar trabalhar para mim? Garanto que você teria uma vida muito melhor. Hoje tenho uma casa com piscina no Recreio dos Bandeirantes.


Meus olhos encheram-se de lágrimas. Olhei na direção do mar e me imaginei uma criança nas costas de Dr. Peixoto, rodeando os aviões que decolavam e pousavam no Santos Dummont.

Guilherme Purvin é escritor.

0 visualização

© 2023 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W