• Guilherme Purvin

A rede

Atualizado: Mai 15

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -

Esta é a história de Hefesto Ferreira da Silva, especialista em redes, e de sua desventura amorosa com Afrodite Moreira da Costa, que o traiu com o seu melhor amigo Ares Marciano de Lima. Como toda história sentida de amor, deve ser lida com um copo de cerveja na mão.

À memória de Aldir Blanc.

O povo da Baixada do Glicério ficou de cara quando soube do pedido milionário de indenização por danos morais, formulado por Ares e pela safada da Afrodite, que chegou das mãos do oficial de justiça. O réu na ação era justamente Hefesto, pescador de arrastão, mecânico e eletricista do bairro, conhecido pelos amigos como o “Professor Pardal” e, pelos desafetos, como “Monstrinho”.


A putaria ficou ainda mais condimentada quando a vizinhança ficou sabendo da sacada genial do advogado de Hefesto, que decidiu promover um tipo de defesa que, no meio jurídico, é chamado de “reconvenção”. O advogado explicou: disse ao juiz que muito pelo contrário, os autores é que devem dinheiro ao seu cliente. Ou seja, reconvenção é "muito pelo contrário". Quando uma criança é chamada de filha-da-puta e diz, polidamente, "quem fala é que é", está na prática reconvindo.


Afrodite, que se apresenta como modelo e atriz, foi casada com Hefesto por mais de cinco anos e, segundo a vizinhança, a fama de sua beleza e sensualidade ultrapassou de há muito os limites do bairro, alcançando a Liberdade, o Cambuci, a Aclimação, o Bixiga e até a Bela Vista.


Na Baixada do Glicério, porém, o que todos sempre comentaram, desde o dia em que os dois resolveram se casar, era que aquilo não ia dar certo. Um freguês da oficina de Hefesto afirmou:


— Aquele casamento só podia dar merda. A mulher é muito gostosa e o Hefesto, coitado, vocês estão vendo... Talentoso, faz umas redes como ninguém, mas é todo torto. Vive trancado na oficina, deixando aquele mulherão à solta, sem ser vigiada.


De fato, Hefesto não gosta de convívio social porque sabe que todos zoam dele. Fica puto quando é chamado de "Monstrinho", explode como vulcão. Tremenda maldade, mas esse povo é mesmo politicamente incorreto. Sabem que o cara é um gênio, conserta de Fusca 1973 a laptop, é o faz-tudo do bairro, aceita fiado, tá sempre tomando chapéu e, gente finíssima, tem vergonha de cobrar as dívidas. Sacanagem falarem que é aleijado e não uma pessoa com deficiência.


Ares, por sua vez, o coautor da ação de indenização, todo bonitão é um sujeito bastante violento e conhecido no bairro. Dizem que já comeu todas as mulheres do bairro e que prefere morrer trepando do que tossindo. Transita entre a polícia e o tráfico, anda sempre armado e é considerado um verdadeiro gato. Conheceu Hefesto ainda de criança, ficou freguês assíduo dele até e, até o episódio do vídeo, tudo ia muito bem.


Nunca ficou claro o tipo de produto que Ares comprava de Hefesto. Ao que parece, seriam armas diferenciadas e equipamentos de proteção individual: coletes a prova de bala, silenciadores de pistola, coisas desse tipo. Os coletes fabricados por Hefesto, pelo que dizem, são verdadeiramente impenetráveis, leves, flexíveis e formam um escudo seguro. Para quem os usa, a impressão é que está de corpo fechado. Verdadeiro amuleto de Ogum.


Essa amizade de infância, essa infinidade de quebra-galhos que o amigo sempre lhe fez, tudo isso servia pra alguma coisa? Nada! Várias vezes as pessoas ouviram de Ares comentários do tipo: “Aquele tesão é muita areia pro caminhão do Monstrinho. Quanto você aposta que passo a vara nela na hora que quiser?”. Ninguém comentava nada a grosseria e deslealdade. Todos sempre tiveram muito medo do sujeito.


Fato é que o adultério acabou rolando e o último a saber foi o marido. Hefesto jura de pé junto que tinha inteira confiança em Afrodite e que ficou pasmo ao receber uma mensagem de WhatsApp com cenas tórridas de sexo capturadas pelas câmeras da casa onde mora, um sobrado próximo à oficina. Os protagonistas do vídeo pornô não eram ninguém menos do que a sua própria mulher e o miliciano!


— O Hefesto está se fazendo de sonso! — protestou Afrodite, quando a casa caiu. — Ele é que instalou as câmeras em casa, pra me humilhar publicamente! O advogado me explicou que ele ofendeu o meu direito de imagem! Agora todo mundo tem um vídeo comigo nua, transando com o Ares. Aquele cara é um corno filho da puta. Vai ter que trabalhar muito na oficina pra pagar pelo mal que me fez.


— Sim, eu instalei câmeras em casa, mas isso foi por uma questão de segurança contra roubo. Tá cheio de bandido na região e nossa casa fica fechada quando eu saio pra oficina. A vítima aqui sou eu, não aquela vadia! Por que Afrodite aceitou se casar comigo? Quando me conheceu, eu já era manco. Achei que ela tinha se impressionado com a minha inteligência e minha habilidade no campo da robótica. Uma safada, me traiu com um freguês antigo.


Hefesto não teve pai. Sua mãe, que vivia no interior, dizia que o encontrou dentro de um repolho. “Você nasceu espontaneamente, não precisei de homem, por isso você será sempre o meu filho predileto”. O dom da partenogênese materna nunca foi questionado pelo filho.


Afrodite também nunca soube quem era o seu pai. Soube por umas tias que sua mãe era uma doidona que nos anos 1970 vivia chapada, zanzando lá pelos lados da Ilha Porchat, em São Vicente. Tinha por costume transar na beiradinha da praia, porque achava que espuma das ondas do mar era um excelente anticoncepcional - o que não se revelou eficaz. O pai, ao que parece, teria sido um namorado que teve naquela época, um bonitão que trabalhava na Aeronáutica, na base aérea de Santos ou do Guarujá. Bonitão deveria ser mesmo, porque a filha era linda. Mas há controvérsia, já se ouviu falar até que Afrodite seria meia-irmã de Ares por parte de pai. A hipótese de amor incestuoso, ao que parece, não teria sido óbice ao relacionamento com o amante.


— Dizem que eu já sabia que Afrodite me traía e que planejei a vingança, que coloquei diversas câmeras no nosso quarto e que deixei que os dois transassem até não aguentarem mais. Isso seria muito estúpido de minha parte, não acham? Tornar público que eu era corno? Além disso, aquela vaca ia lá se incomodar de estar sendo vista transando?


— De um lado, eu reconheço que Hefesto sempre foi um amigo ponta firme, além de ser o cara mais inteligente que já conheci. Ele inventa coisas úteis, tem sempre a resposta para o que eu preciso. Até interromper a energia elétrica do bairro já conseguiu, uma vez que eu precisava. Por outro lado, o cara não se enxerga, é feio de doer e, ainda por cima, aleijado. O Monstrinho. Me disseram que ficou assim por causa dos maus tratos do marido da mãe dele. O homem, irado com alguma coisa que a mulher teria dito ou feito, jogou a criança ainda pequena escada abaixo e Hefesto ficou assim, desfigurado e com a perna esquerda arrastando.


Afrodite atualmente vive com Ares e está grávida de uma menina. Se se arrepende de ter traído Hefesto em sua própria casa? Ela diz que não:


— Ares sabe me possuir por completo, ele aplaca meus desejos. Depois da transa, eu me sinto saciada e essa paz alimenta ainda mais o meu tesão. Como diz a canção do Zeca Pagodinho, descobri que te amo demais! Ares é meu vício. Já o Hefesto, bem, ele era meu marido. Me casei com ele porque ele me prometeu que ia me dar vida de rainha. No fundo, ainda quero bem aquele coitado. Ah, a nenê vai se chamar Harmonia. Não é um nome lindo? Acho que a minha mãe adoraria.


O vídeo ainda circula em alguns grupos de WhatsApp e, ao que parece, fizeram seu upload para um site de sacanagem. Se foi Hefesto que o jogou na rede intencionalmente vai ser difícil saber, até mesmo porque todo morador tem o direito de instalar câmeras de segurança em sua casa sem ter o receio de que elas possam ser indiscretas e revelem cenas de adultério.


Afrodite e Ares, atualmente, fazem sucesso no ramo do entretenimento noturno. Miliciano bom de cama, se tiver juízo, muda de ramo. E Monstrinho segue em sua oficina. O mais provável é que a ação de indenização termine num acordo amigável. Ninguém teria 200 mil reais para pagar ao vencedor. Como os valores pleiteados pelas partes são equivalentes ganha o autor e ganha o reconvindo.

Venus and Mars Surprised by a Net by Costantino Cedini in the Palazzo Emo Capodilista in Padua, Italy

Guilherme Purvin é contista, autor dos livros "Laboratório de Manipulação" (2017) e "Sambas & Polonaises" (2019).

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