• Guilherme Purvin

Solarística e a invenção de Morel

Atualizado: Mai 14

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -



Cena do filme "Solaris", de Andrei Tarkovski.

Começo com uma passagem que agora estou achando obscura na crônica “Passado Imperfeito”: “O roxinho continua aqui, marcando as horas para ninguém, como aquela transmissão de rádio do seriado Lost, uma voz de mulher ditando números em ordem crescente num espaço inacessível, tão somente destinada a mostrar que o tempo prosseguirá mesmo sem vida humana no planeta”. Ninguém tem obrigação nenhuma de saber o que era esse episódio – até porque todos devem saber do vexame que foi o desfecho dessa série. Por isso, vou tentar explicar melhor essa história de mecanismos acionados num planeta desabitado.


Por uma questão de simetria, o melhor seria colocar os escritores de um lado e os diretores de cinema de outro, mas para mim, o que importa mesmo é “A Invenção de Morel”, livro que inspirou Alain Resnais a dirigir “O ano passado em Marienbad”; e o filme soviético que se baseou no livro de ficção “Solaris”. Estou falando de Adolfo Bioy Casares e Andrei Tarkovski.


Em meio à guerra que se trava entre o neoliberalismo fascista, impondo um processo de eugenia, e as vidas humanas, esses dois arquétipos - a máquina de Morel e o planeta-oceano Solaris, passeiam pelo meu pensamento.


De um lado, existe uma máquina insensata que projeta eternamente as mesmas cenas de uma festa ou reunião social em determinada ocasião, numa projeção tridimensional materializada, que impede totalmente que consigamos distinguir o espetáculo e a realidade, esta somente acessível no momento em que nos decidirmos a abandonar a festa na ilha ou no hotel em Marienbad. Neste caso, a fantasia ansiada passa a ser a própria fuga rumo à realidade, fuga desse pesadelo que impede qualquer tipo de interação humana. A voz da mulher que nunca repete os números e, por isso, ilude os sobreviventes na ilha de Lost é apenas uma variante da invenção de Morel: acrescenta-se um algoritmo matemático e temos aí o simulacro da vida. Talvez tenhamos em breve vídeos pornô que também simulam mudanças: não foi essa, afinal, a trama do filme Her – um homem que abandona qualquer tentativa de relacionar-se com a mulher, pois a vida é imperfeita, e encontra a felicidade, por um breve instante, num sistema operacional que constrói uma figura feminina a partir da detecção de seus desejos. Mas, mesmo com algoritmos e detectores de desejos, os vídeos pornô acabam se tornando um pesadelo, da mesma forma que a confraternização em looping na ilha de Morel. A projeção de uma fantasia sexual se repete à náusea, eternamente os mesmos trejeitos, aos 5 minutos e 32 segundos a primeira imitação de orgasmo, aos 7 minutos e 23 segundos a mesma coisa, sob outro ângulo, tudo feito para esvaziar a tensão sexual sem risco de se ter que pensar em amor, empatia, solidariedade, carinho.


Essa mesma máquina está presente neste momento na ordem econômica capitalista. Seu objetivo é o de salvar empresas, sob o argumento que empresas geram empregos a todos aqueles que se disponham a sacrificar os mais vulneráveis e, também, os profissionais da saúde convocados a tentar salvá-los. A máquina continuará funcionando, em benefício de uma ficção jurídica – a vida de uma empresa, de um banco, de uma indústria de armas.De outro lado, numa estação espacial distante, cientistas estudam um fenômeno chamado Oceano Solaris, região no espaço cósmico que tem o misterioso dom de realizar os nossos sonhos sem pedir nada em troca – ou, simplesmente, um planeta pensante. Solaris não pretende engendrar o funcionamento de máquina alguma para além da morte das pessoas que sonham. O que o misterioso planeta-oceano perpetua é o momento em que o astronauta abraça seu pai numa dacha a cem quilômetros de Moscou, ou a mulher que o amou e que morreu tragicamente.


Mas, atenção, esse planeta-oceano nada promete: ele simplesmente materializa sonhos, criando réplicas perfeitas compostas de neutrinos, réplicas que podem ser apenas uma casa, mas também podem ser entes queridos que amam e sofrem, pois são reais, muito embora sua gênese tenha sido um desejo humano e a sua consistência não coincida com a estrutura físico-química da vida na Terra.


Adolfo Bioy Casares, autor de "A invenção de Morel"

E é este o maior perigo dessa região do universo: não se pede nada a Solaris, Solaris incorpora o inconsciente de quem flutua em sua órbita. E nem sempre desejamos abraçar nosso pai ou a mulher que perdemos. O planeta não escolhe as pessoas cujos sonhos materializará. Assim, enquanto um dos cosmonautas na estação espacial pode sonhar com a amante incondicional, outro deles criará humanóides bizarros para realizar experiências envolvendo dor e tortura em seu laboratório. Num outro plano, Solaris poderá materializar o desejo de uma maioria que prefere ser governada por um criminoso e este criminoso poderá pedir a Solaris que seu país seja a ilha de Morel, porque esse é o seu desejo oculto: evitar falências às custas de certidões de óbito.


A elite que se abriga no interior de suas casas e que teme apenas trazer para dentro o vírus da morte escondido na embalagem das entregas domiciliares, reflete diante da página da loja virtual sobre o melhor produto a comprar, se o projetor de Morel ou a estação espacial que flutua sobre Solaris. Haverá como materializar alguém que nos proteja e que compartilhe alegrias e temores? Haverá como beijar em looping mas sem nos afogarmos no fundo do mar? Talvez tudo o que baste seja ver com os olhos de outra pessoa uma simples romã no pé, a nuvem num céu azul, uma flor que não é resultado de equações fractais. Parafraseando Gabriel Yacoub, as coisas as mais simples são aquelas que jamais nos esqueceremos.


Cena de "O ano passado em Marienbad", de Alain Resnais (filme baseado no livro de A.Bioy Casares).

Guilherme Purvin é escritor.

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