• Guilherme Purvin

É dia das mães

Atualizado: Mai 13

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -



Em vão tentava escrever uma crônica comemorativa do dia das mães. Teria que falar sobre a pandemia, repetir que estamos isolados, um enorme número de filhos não poderão visitar suas mães e terão que se contentar com lives no zoom ou encontros a quatro no whatsapp.


No mais, teria que optar entre o avental sujo de ovo da era anterior à pílula anticoncepcional ou modelo Século XXI da mãe empoderada que trabalha fora.


Fato é que acabei oscilando entre as perspectivas da trava emocional e da repulsa ao clichê e enviei um tímido link para Youtube do Luciano Pavarotti cantando Mamma, son tanto felice perché ritorno da te.


Diante das primeiras reações de amigos elogiando a lembrança, arrependi-me, envergonhado por ser tão mau e sarcástico num dia em que todos estão cheios de amor e emoção.


A verdade é que, trancado em meu apartamento, depois de telefonar para minha mãe, passei o resto do dia cantarolando uma canção de Nélson Cavaquinho e Augusto Tomaz Jr. que a minha geração ficou conhecendo na voz de Chico Buarque.


A canção começa assim:


Vou abrir a porta Mais uma vez pode entrar É Dia das Mães Eu resolvi lhe perdoar

Tratar-se-ia, pela interpretação destes versos, de uma mãe que perdoa o filho por alguma maldade cometida, abrindo a porta da casa nessa data tão especial. Filhos maus há aos borbotões. Basta lembrar um só: o campônio que pergunta à amada o que ela quer que ele faça para provar a ela sua louca paixão. E a amada, gaiata ou maquiavélica, pedi ao namorado (que decerto era um psicopata) o coração da sogra. Lançada por Vicente Celestino, Coração Materno também chegou para mim em segunda mão, numa gravação antológica de Caetano Veloso no álbum Tropicália.

Veio também à memória um velho blues tocado pelo Premê por volta de 1977 - Oedipus Blues, na voz de Mário Manga (que, na época, era conhecido como Biafra). Mas Oedipus Blues sempre foi uma paródia do clássico The End, da banda The Doors. Numa magistral interpretação do lindíssimo e sensual Jim Morrison, esta canção, que integrou a trilha sonora do filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppolla, por motivos óbvios não seria recomendada para comemorarmos os tempos atuais, pena de nos afundarmos num pessimismo que está terminantemente proibido.


Havia outras possibilidades: Eduardo Dusek cantando o Rock da Cachorra - para uma cadelinha chamada Suamãe. Ou os Mutantes mandando um abraço pra velha e recomendando que ela vá se tratar... Mas todas estas canções acabam soando mais como piadas de adolescentes e a minha intenção não é de chocar, mas apenas de expressar o que penso sobre o tal "dia das mães".


Volto, então, à canção de Nelson Cavaquinho:

Deus me ensinou praticar o bem Deus me deu essa bondade Vou abrir a porta pra você entrar


Sim, sim, mais do mesmo... Mamãe é boazinha, mamãe perdoa tudo! Já estou prestes a enviar aos grupos um JPG de flores vermelhas com o o formato de um coração. Mas então chegamos às duas últimas estrofes:

Mas não demore Que a outra pode lhe encontrar


Epa, como assim?! "Não demore, que a outra pode lhe encontrar"? Mas quem é essa "outra" que não pode saber que o filhinho veio visitar a mãe? Este fecho para a canção é, para mim, a mais genial reviravolta jamais ouvida numa canção popular sobre o dia das mães (ou sobre qualquer outra coisa).


Afinal, para compreender o seu significado, tenho que ouvir novamente a canção. Apresento duas possíveis interpretações para estas estrofes finais.


A primeira é de que quem canta é o ex-marido, que abandonou a esposa mas que, num surto de infinita comiseração tão característico da mentalidade "bondosa" do brasileiro, aceita recebê-la para um revival rapidinho. Deus lhe deu "essa bondade", então tudo bem, no dia das mães, afinal a atual companheira está fora de casa. Neste caso, a canção é genial pois desmascara a hipocrisia machista de quem não se furta a dar uma puladinha da cerca, mesmo estando comprometido com outra mulher.


A segunda é de que quem canta é mesmo uma mãe, que aceita receber uma visitinha do pai de seus filhos, desde que ele prometa ir embora rapidamente, pois ela o abandonou por uma mulher - a outra. Hipótese igualmente revolucionária, pois apresenta uma personagem sexualmente liberada e que adota sem qualquer cerimônia as mesmas práticas do mundo masculino numa sociedade patriarcal e feminicida.


Seja como for, o que me deu mesmo vontade foi de falar sobre mães reais - cada uma delas com suas próprias características, virtudes e defeitos, alegrias e tristezas, realizando trajetórias que não cabem em memes e stickers de whatsapp. Feliz dia das mães, sejam elas o que quiserem ser. E viva Nelson Cavaquinho!

Guilherme Purvin é filho da D. Alice.


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