• Guilherme Purvin

Por que não devemos atirar um tomate na cara da Regina

Atualizado: Mai 10

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -


Mudas de tomate e de feijão no dia 10 de abril de 2020.

Não sabia da existência de tamanha variedade. Eu mesmo só identificava uns três tipos: o mais barato, redondo, cheio de água entre as sementes; outro magrelo e comprido, mais caro e sequinho, mas que estraga também mais depressa na geladeira; e aquele ainda mais caro que só entra na culinária de gente chique: pequenino, enfeitando um prato de arroz e ladeado por uma delicada folhinha de manjericão. No mais, confundi muitas vezes tomate com caqui.


Uma das melhores coisas a se fazer numa viagem de turismo (prática que floresceu no planeta entre 1780 e 2020) era visitar mercados fechados, extasiar-me com a quantidade de aromas, cores e formas das frutas e legumes improváveis. Em regra, porém, tudo o que se podia fazer nessas viagens era fotografar, ante a falta de uma cozinha. A revelação se deu na Itália. Entrei no histórico Mercato dell'Unità, edificado em 1928 em estilo neoclássico, no bairro de Prati (pertinho do Vaticano), onde encontrei uma profusão incrível de tomates.

Fotos: (c) André Martinho Lamac


Me disseram alhures que existe uma tapa espanhola, pan con tomate, que é facílima de fazer (segue a receita da Rita Lobo). No entanto, eu tenho uma fórmula muito mais simples. Salada de tomate? Nein, danke! Levou um bom tempo, mas finalmente cheguei a uma conclusão: tomate fica gostoso mesmo em canoinha e com sal. Nada mais! Nada de vinagre, aceto balsâmico, limão, azeite, nada! Pegue o tomate, lave, corte em quatro, um pouco de sal e está pronto o manjar dos deuses!

Com o know-how que venho adquirindo no confinamento, talvez eu venha a escrever um livro sobre tomates em geral - ou ao menos sobre a variedade que acabei plantando em minhas terras. A começar pela característica do solo (metade com terra, metade com terra vegetal), da extensão que as raízes poderão alcançar (os limites de um vaso ou uma latinha) e do relevo (eu precisaria de um altímetro para saber em qual nível do mar fica o meu apartamento). Infelizmente, não tenho os instrumentos científicos para um tratado sobre a composição geoquímica do solo e a minha impaciência não permite que eu faça tabelas detalhadas sobre a quantidade de água que coloco, as condições de luz etc.

Então acho melhor só observar o crescimento das plantas, as mudanças no formato e na cor das folhas etc. Por exemplo, reparei que as hastes do tomateiro são peludinhas, diferentemente dos quatro feijõezinhos que coloquei num dos vasos, para fazerem companhia aos parceiros vegetais. A forma das folhinhas do tomateiro é muito mais complexa do que a dos feijões. Estas se parecem com orelhas de elefantes, aquelas têm forma de estrela alongada. Eu sei que os tomateiros crescem mais do que os feijões, mas na primeira fase de vida deles, os feijões dão um banho nos parceiros. Lembram aquelas crianças que, na escola, são as mais grandalhonas e experimentam a sensação de serem as líderes da tribo. É bom que ao menos por um breve momento vivam essa sensação, pois com o tempo dificilmente alcançarão o sucesso na sociedade capitalista: serão subordinadas por tomateiros poderosos e ficarão aos seus pés e à sua sombra.

Quando saí da Consultoria Jurídica da Secretaria de Recursos Hídricos e Saneamento, uma colega que havia sido bibliotecária de uma ONG me deu de presente vários livros, pois ficou sabendo que eu era do gênero dos que "gostam de ler"... Um deles era sobre plantio de tomates. Acho que o livro ficou lá na sede do IBAP, que está fechada há mais de um mês. Eu não pretendia mesmo ler aquele livro. Vou ver se descolo umas berinjelas - que são, ao lado do tomate e do queijo parmesão, as bênçãos dos deuses. Pretendo também preparar uma lasanha de berinjela. Ou um moussaka, porque tenho batata e canela. Não, melhor não, moussaka não leva tomate - muito embora as berinjelas sejam parentes dos tomates e dos pimentões.

Para quem se interessa por linguagens indígenas na América Latina, uma curiosidade: a palavra tomate tem origem asteca - tomatl, da mesma forma que abacate, que os astecas chamavam de avacatl - ou, ainda, axolotl, bichinho imortalizado pela pena de Julio Cortazar (leia aqui, se tiver vontade, mas já aviso que não versa sobre tomatl). Creio que estas breves ponderações tenham servido para convencer a todas e todos que Regina não deve levar um tomate na cara. Tomates são dignos, são lindos, são deliciosos e nem mesmo quando podres mereceriam tal desfeita.

Para aprofundamento das pesquisas sobre tomates, segue alguma bibliografia completamente inútil, dispensável, despicienda e supérflua:


Tolerância da cultura do tomate à salinidade do solo em ambiente protegido

Como plantar tomate orgânico em casa

Agricultor investe no plantio de tomate e pimentão em vaso para aumentar a produção



Mudas de feijão e tomate no dia 10 de maio de 2020

Guilherme Purvin, tetraneto de Henrique Caetano de Figueiredo e de Ansis Purviņš, é agricultor e cronista.

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