• Guilherme Purvin

As paixões sonoras de minha vida

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -



Adriana Calcanhotto canta uma canção por acaso e eu penso na trilha sonora que me acompanha ao longo destes 63 anos. A rádio tocava Ângela Maria, Lana Bittencourt, Lene Eversong, Cely Campello, mas para mim tudo começou por conta de uma paixão por uma loirinha chamada Rita Cléos. Era o ano de 1965 e a TV Tupi exibia a novela "O cara suja", onde o ator Sérgio Cardoso arriscava-se na carreira de cantor: Sei tu biondina la mia piccina... Uma canção de amor a Yara, interpretada pela atriz Rita Cléos, sobre quem nunca mais ouvi falar. Pedi o disco com a versão original de Se piangi, se ridi, com Bobby Solo.


Na esteira do sucesso da novela romântica sobre imigrantes italianos na cidade de São Paulo, veio a minha nova paixão - Natália. A novela era Nino, o Italianinho, na qual o ator Juca de Oliveira apaixonava-se pela personagem interpretada por Bibi Voguel. Nas tardes de domingo, uma estação de rádio tocava uma hora de sucessos italianos - Gigliola Cinquetti, Rita Pavone, Pino Donnagio. Era tudo o que eu conhecia de música - aquele idioma que me era tão familiar, falando sempre de amores e paixões irrealizadas.


A minha formação sentimental e musical prosseguiu no ritmo da história da televisão brasileira. Até que um dia, num programa apresentado pela Elis Regina na TV Record, ouvi Ary Toledo cantando Pau de Arara, de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra e meu repertório musical voltou-se ao Brasil. Era o ano de 1966. Vieram os festivais e eu não coloquei mais nenhum disquinho italiano na vitrola. Elis cantando Arrastão, Marília Medalha em Ponteio e aquela menina com um coraçãozinho desenhado no rosto, acompanhando Gilberto Gil em Domingo no Parque, disputavam o meu coração. Confuso, não sabia se torcia para Banda, Disparada, Alegria Alegria... Pela lateral, corriam paralelamente Roberto Carlos, The Monkees, Bee Gees - coisa de irmã mais velha que absolutamente não me interessava. Desse repertório que desprezei, viria resgatar dez anos mais tarde apenas um nome: Taiguara.


Eu sintonizava na AM 670 - Rádio Excelsior, repleta de lixo cantado em inglês que eu consumia avidamente - Toast and marmelade for tea, Rain and Tears, No milk today... Às vezes, algo em francês, como Jane Birkin ou Françoise Hardy, que por sinal era amiga da Tuca, que por sua vez era amiga da Miriam Batucada, que costumava passar pela casa duma vizinha chamada Deise. Por conta desse elo extremamente consistente, eu me sentia íntimo de Françoise Hardy, a minha primeira grande e verdadeira paixão, pois agora eu já tinha 14 anos de idade:


Je ne sais pas qui tu peux être

Je ne sais pas qui tu espères

Je cherche toujours à te connaître

Et ton silence trouble mon silence.


Enquanto ouço Bessie Smith realizando minha caminhada diária do quarto até à área de serviço, dando a meia volta diante da máquina de lavar roupa, a caixa de som na sala toca Down hearted blues. Paixão já madura, era 1981 e eu estava no 2º ano de Jornalismo na ECA. A Abril Cultural havia lançado uma uma coleção de jazz para aquisição em bancas de jornal. O o título do LP era "A imperatriz do blues". Bessie Smith chacoalhou o meu coração. O que eu conhecia de mais próximo à sua voz eram os álbuns de Janis Joplin - In concert (um álbum duplo) e Cheap Thrills e alguma coisa da Mamma Cass. Até então, acreditava piamente que aquilo tivesse nascido em Woodstock ou no flower power de San Francisco. De repente, descobria que tudo o que havia ouvido era mera diluição de Bessie e Billie Holliday:


I woke up this morning with a awful aching head

My new man had left me, just a room and a empty bed

Observo o volume formado pelo lençol, edredom e cobertor amontoados sobre o meu colchão e concluo que está na hora de resgatar a minha metade portuguesa. Então coloco Lena D'Água, para que meu peito fuja pela fresta que se abre neste paredão em ruína rumo a janelas tricotadas.

São Paulo, 7 de maio de 2020


Guilherme Purvin é escritor. Formado em Direito (1982) e em Letras pela USP (2018).


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