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  • Guilherme Purvin

De São Tomé a Príncipe

Atualizado: 11 de jan.

= Guilherme Purvin =

Trata-se do menor país africano. Seu nome oficial é República Democrática de São Tomé e Príncipe e sua capital, São Tomé. Além da capital, ainda há algumas outras (poucas) cidades importantes, como Santo António, Santa Cruz e Neves. A atual Constituição foi publicada em 29/1/2003. A língua oficial é o Português. Localmente, também se fala Crioulo. A maioria das pessoas fala de forma inteiramente compreensível.


O dia começou bem cedo. Antes mesmo das seis da manhã já começava a clarear e não havia mais razão para permanecer deitado. O fuso horário de São Tomé é o mesmo de Lisboa, não havia jet lag. A vontade era de aproveitar o máximo possível o período da manhã. No andar térreo havia um novo vendedor de artesanato local - peças de madeira com barquinhos ou máscaras, além de alguns quadros, mas havíamos prometido na véspera que compraríamos algo do artista da noite anterior, que insistia em dizer que, para nós, estava oferecendo um desconto de quarenta e quatro por cento. Isso mesmo: nem 50% nem 40%, mas exatos 44%!

 

No café ("pequeno almoço"), as mesmas frutas que já haviam sido oferecidas num prato de boas vindas na noite anterior, além de alguns sucos e pães, ovos e frios. Um certo "pãozinho de deus" era anunciado como especialidade santomense. Na prática, é um pão doce comum com um pouco de creme, igual a qualquer pão doce de padaria paulistana. Em resumo, esqueça os pães doces e enfie o pé na jaca, na manga, no mamão, na banana, no maracujá e nas lascas de coco maduro e coco queimado.


Foto: (c) Guilherme Purvin.
 

A moeda do país é a Dobra (STD). Pedimos para trocar cem euros. Um Euro equivale a aproximadamente 24,5 dobras. Na recepção do hotel, porém, recebemos duas mil e trezentas dobras (1:23), o que não pareceu uma taxa exorbitante.


Em seguida, saímos para conhecer os arredores do hotel, que fica no final da baía de Ana Chaves. Há logo ali, a menos de 200 metros do hotel, uma pequena praia de areia, onde uma mãe ensinava seus dois filhos a dançar, enquanto outras crianças brincavam na água ou na areia.

Foto: (c) Guilherme Purvin.

Sentimos um cheiro forte de alguma coisa podre no meio de um jardim. Era um cão morto, provavelmente há vários dias. Fiquei chocado com o fato de que não houvesse nenhum centro de controle de zoonose ou vigilância sanitária para retirar aquele cadáver dali.


Seguimos pela avenida 12 de Julho, costeira, atravessando para o outro lado quando chegamos diante do Hotel Pestana Miramar, o mais antigo do país. Logo à frente, por conta do sol forte (eu estava sem boné e sem filtro solar), paramos para tomar café e beber água num boteco de rua chamado "Passante", onde também se reuniam várias pessoas e cachorros. É, na verdade, um bar do próprio hotel Pestana Miramar. Foi engraçado ver dois meninos que minutos atrás haviam pedido insistentemente que comprásssemos coisinhas deles. Agora, passavam à nossa frente exibindo orgulhosos doces enormes que haviam acabado de comprar ou, talvez, ganhar. Os cachorros que rondavam os clientes tinham as orelhas perfuradas com argolas de plástico, indicando que haviam sido vacinados ou castrados. Há muitos viralatas pelas ruas.


Foto: (c) Guilherme Purvin.
 

Logo depois do Ministério dos Investimentos está a Embaixada de Portugal, onde havia também sido hasteado a bandeira da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portugeusa. A República Democrática de São Tomé e Príncipe acolheu em a XIV Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), no dia 27 de agosto de 2023.

Foto: (c) Guilherme Purvin.
 

Virando para a esquerda, na esquina com a Rua 3 de fevereiro, ocupando quase inteiramente um quarteirão, está o famoso Liceu Nacional, onde alguns jovens jogavam futebol. O prédio mostra sinais de degradação e abandono. Em 1975, com a independência nacional de São Tomé, a instituição foi batizada de Liceu Nacional Paulo Freire. Em 1988, porém, o nome foi alterado para Liceu Nacional de São Tomé e Principe.

Foto: (c) Guilherme Purvin.

Foto: (c) Guilherme Purvin.
 

A principal via do bairro é a Avenida das Nações Unidas onde, aliás, está localizado o prédio da ONU. De acordo com informações constantes em sua página oficial, "As Nações Unidas estão presentes em São Tomé e Príncipe desde os primórdios da independência, em 1975 e trabalham em parceria com o Governo, os parceiros de desenvolvimento, a sociedade civil e o sector privado para um desenvolvimento social, económico sustentável com base na promoção da paz, do respeito pelos direitos humanos, na igualdade género, no uso sustentável dos recursos naturais e ao mais alto nível no aconselhamento político e assistência ao desenvolvimento de capacidades".


Estranhamente, o prédio das Nações Unidas foi o único em que vimos cercas em espiral de aço cortante, dando-lhe um aspecto extremamente hostil.

 

A "agitação" da Avenida das Nações Unidas, claro, é muito relativa. Ao lado da Embaixada de Angola, cerca de vinte pessoas conversavam. Não sabíamos se eram angolanos reunidos em confraternização, mas em pouco tempo percebemos que estavam todos entrando e saindo de um prédio vizinho, a "Igreja Maná", uma das centenas de igrejas evangélicas contemporâneas. Neste caso, foi fundada em 1984 pelo moçambicano Jorge Tadeu, um engenheiro civil especialista em pontes e estruturas especiais. A Igreja Maná detém diversas estações de rádio e de TV e presta serviços comunitários à população, de onde provavelmente provém sua maior atratividade.

 

O comportamento dos motoristas é imprevisível. Em dado momento, já quase terminando de atravessar a rua pela faixa de pedestre, quase fui atropelado por uma perua 4x4 pilotada por um sujeito muito mal humorado que enfiou a mão na buzina mas não desacelerou o veículo. No entanto, mais à frente, um piloto de "mota" gentilmente deixou-nos atravessar com tranquilidade. Na rua, os motoristas de taxi buzinam e abordam os transeuntes (provavelmente só os não negros), oferecendo seus serviços.


De todas as plantas na cidade, a que mais chamou a atenção foi uma palmeira com o formato de um cocar indígena. Não sei se é nativa da ilha ou se é alguma planta ornamental exótica. Fato é que há diversos exemplares nos jardins das casas.




 

Voltamos às 11 horas para fechar a conta do hotel e deixar as malas prontas para a viagem para Príncipe. Antes do voo, porém, ainda fomos almoçar no Restaurante Papa Figos. A comida não decepcionou.


Foto: (c) Guilherme Purvin.

Provamos rissóis de peixe e um peixe chamado maspombo, espécie de sardinha que é empanada com fubá e frita enrolada em palitinho, servida com banana-pão assada e um molho branco, provavelmente maionese com limão. O prato principal foi moqueca de peixe com camarão, que nos fez lembrar que a comida tipicamente bahiana é, na verdade, africana. Só o refrigerante era meio horrível. Pedimos Coca-Cola, veio uma imitação portuguesa chamada DJ, mas isso não foi problema. O preço também foi bastante honesto: menos de 35 euros, ou seja, quase a metade do preço pago pelo péssimo jantar da noite anterior no buffet do hotel.


Foto: (c) Guilherme Purvin.

Foto: (c) Guilherme Purvin.

Evite D J Cola! - Foto: (c) Guilherme Purvin.
 

Quem fez o transfer para o aeroporto, às 13 horas, foi um senhor chamado Amarildo. Muito simpático e conversador, ele explicou que era sindicalista, membro da UGT - União Geral dos Trabalhadores. Falou bastante sobre a situação política em STP e em Angola, sobre a OIT e sobre suas relações com a CUT brasileira. Defendeu a filha do ex-presidente de Angola, que vem sendo acusada de haver adquirido uma fortuna incompatível com sua renda: ao menos ela investe na geração de empregos no seu país. Perguntei sobre a prospecção de petróleo e a Agência Nacional de Petróleo de São Tomé e Príncipe. Amarildo disse que não ficava um centavo do dinheiro gerado com a prospecção na própria ilha. As relações de STP com Angola, pelo que temos sentido, são muito mais intensas do que, por exemplo, com o Brasil, Portugal ou Guiné-Bissau. O Brasil é uma referência, claro, porém distante. Ele disse que gostaria muito de conhecer nosso país, porém os preços das passagens são altos demais.

 

Chegamos cedo no aeroporto. O embarque para Príncipe estava previsto para as 15 horas. Ficamos surpresos com o fato de que havia dois voos seguidos para a pequena ilha, um deles às 14h30 e outro, meia hora mais tarde. Quem apareceu lá foi a moça que estava no assento da frente no voo Lisboa-São Tomé do dia anterior, com duas crianças: um menino ainda de colo e um garoto com uns cabelos afro muito bonitos. O avião era um bimotor para 19 passageiros. Nosso lugar foi cedido para a moça com as crianças e ficamos no lado de um só assento, à esquerda.


Foto: (c) Guilherme Purvin.

Foto: (c) Guilherme Purvin.

Foto: (c) Guilherme Purvin.
 

O percurso é rápido e foi bastante tranquilo. Visto do alto, Príncipe é uma floresta, sem praticamente nenhum prédio de alvenaria. Foi possível ver ainda diversas praias de areia muito branca, praticamente desertas. O Aeroporto de Príncipe é menos da metade do tamanho do de São Tomé, praticamente uma pequena rodoviária.


Foto: (c) Guilherme Purvin.

Se a viagem a São Tomé transmite a sensação de que voltamos 60 anos no tempo, em Príncipe a impressão que se tem é de que acabamos de ingressar em algum romance do Século XIX, talvez "Inocência", do Visconde de Taunay, ou "Til", do José de Alencar. Há, porém, wi-fi na Roça Belo Monte. E quem nos atende é a Verônica, uma venezuelana que que nunca ouviu falar do romance "Equador", do Miguel de Souza Tavares. Para falar sobre este novo cenário, vou precisar de mais umas duas horas, mas já são dez da noite.

Príncipe, 7/1/2024

= Guilherme Purvin =

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