• Guilherme Purvin

Kafka e a esponja da pia

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -


Eu ainda pensava na faculdade que deveria fazer. Pensava só um pouquinho, na verdade, pois o que queria mesmo era me divertir. Mas, quando chegou o segundo semestre do terceiro colegial, tive que tomar uma decisão. Na dúvida entre Jornalismo e Engenharia Eletrônica, resolvi seguir o exemplo de minha irmã e me inscrevi no vestibular para a faculdade menos distante de casa - um lugar que me permitisse ir de ônibus nunca antes das sete e quinze da manhã.


Tinha algumas informações sobre o lugar e nenhuma ideia sobre o que era uma faculdade de Direito, mas o que realmente importava era a distância: fazer ECA ou Poli exigiria despertar às cinco e meia da madrugada; já a São Francisco ficava a apenas meia hora de minha xícara de café. Ademais, alguns de meus poetas mais caros haviam estudado lá, dentre eles Castro Alves.


Foi, aliás, um estudante do Largo que me apresentou à obra de Franz Kafka. Nessa época, eu ainda pensava em circuitos elétricos e realizava os experimentos de Aldous Huxley ao som de Ummagumma - disco do Pink Floyd que só existia importado e que um colega de incursões pelos corredores e escadarias solitários do prédio da Gazeta gravou pra mim em fita cassete.

48 anos mais tarde, se conseguir dormir até às cinco da manhã, será motivo de comemoração. Despertando cada vez mais cedo, hoje, eu poderia até cogitar de fazer Agronomia na ESALQ que daria tempo tranquilo de pegar o ônibus para Piracicaba. Mas a minha agronomia, neste confinamento, limita-se ao plantio de tomateiros em vasos e panelas. O resto do tempo eu gasto limpando a cozinha, onde persiste o mistério da louça e das panelas.


Coloco o detergente na esponja e começo com os pratos de louça, copos, colheres, garfos e facas, que são mais fáceis de limpar. Deixo as panelas para o fim, pois elas exigem sapólio líquido no lado abrasivo da esponja. Olho fixamente para a esponja. Algo ali causa certo desconforto. Com ela na mão mão direita, espalho o creme saponáceo pelo verde áspero para dar brilho no fundo da leiteira e da panela de ferver macarrão. E me pergunto: por que o lado macio da esponja é amarelo e o áspero é verde? Seria uma homenagem ao Exército? Amarelo-congresso-internacional-do-medo -flores amarelas e medrosas. Tento me lembrar se as esponjas de Varsóvia ou Estocolmo são também nessas cores. E, diante da Scotch Brite, vem à memória a poesia de Castro Alves, auriverde esponja que a brisa do Brasil beija e balança:


Tu que, da liberdade após a guerra, 

Foste hasteado dos heróis na lança 

Antes te houvessem roto na batalha, 

Que servires a um povo de mortalha!…


Auriverde mortalha. Péssima ideia que tive de falar sobre esponjas e de me lembrar que nossa sorte está nas mãos de um psicopata. Foco: o tema é Odradek , conto de Franz Kafka. Odradek seria, talvez, um carretel de linha com a base estrelada, todo embaraçado, que surge de repente em sua casa. Nunca havia dado pela sua presença mas, agora que já se passaram oito semanas, é inevitável deparar-me com ele. Ele sempre esteve à minha espera, aguardando o momento oportuno para iniciar uma conversa franca e sincera. Odradek, solto há tantos anos, passeando entre gavetas de quinquilharias, entre chaves de fenda, alicates, fitas isolantes e tubo de cola-tudo, surgiu na forma de uma esponja verde e amarela. Segundo Franz Kafka, Odradek tem extraordinária mobilidade e não se deixa capturar.


Mas atualmente ele já não tem mais a mesma agilidade dos velhos tempos em Praga.


"Como te chamas?" - pergunto à esponja.


"Odradek" - diz.


"E onde moras?".


"Domicílio ignorado" - responde, e ri um riso intimidador, o inverso da música que a ponta de um lápis poderia produzir ao escrever a palavra certa numa folha de papel.


São Paulo, 6 de maio de 2020

Guilherme Purvin é escritor. Formado em Direito (1982) e em Letras pela USP (2018).


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