• Guilherme Purvin

Ninguém mais se dirá doente

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -




Deveria ter escrito esta história no dia 26 de abril, domingo, mas os dias foram se passando, todos eles igualmente tão diferentes, às voltas com o mistério da pia eternamente suja, que só agora, quando já não tenho mais nenhum conto, novela, romance, ensaio, crônica ou poesia para revisar, quando tudo volta ao início dos tempos, é que a minha cabeça concede-me férias para falar sobre o meu testemunho.


De acordo com a Wikipédia, eles surgiram em 1870, nos Estados Unidos. Tratava-se de um grupo de estudos da Bíblia liderado por Charles Taze Russell. Depois ocorreram mudanças, até que em 1931 adotou-se a denominação atual da seita ou religião.


Está em Isaías, capítulo 33, versículo 24: "Ninguém mais em Jerusalém adoecerá: o povo dessa cidade terá seus pecados perdoados".


Quem leu para mim estas palavras foi Silvia, tentando me consolar dos horrores da pandemia. Achei simpática a sua abordagem inicial: perguntou-me se eu acreditava que um dia não haveria mais nenhuma doença no planeta.


Na verdade, já não me lembro mais se ela disse "no planeta" ou "no mundo". Desconfio que ela tenha dito "no mundo", essa palavrinha "planeta" está muito ligada à Astronomia, à Ecologia, enfim, a assuntos terrenos próprios dos cientistas ateus. E Silvia é testemunha de jeová, digo, Jeová, com maiúscula.


É evidente que continuará havendo doença no planeta (ou no mundo), respondi. Acho que ela gostou muito da minha resposta à sua enquete, pois veio então com esse versículo de Isaías e me explicou, antecipando-se a eventual refutação dos argumentos que eu poderia trazer: Jerusalém, explicam os estudiosos da Bíblia, significa todas as cidades do mundo (ou do planeta).


Tudo bem, concedi. Que seja então a metonímia universal do Reino de Deus - a cidade libertada, Jerusalém invisível das histórias de Marco Polo para Kublai Khan.


Quando, porém, Silvia me pede permissão para ler um versículo de Amós, eu protesto. Um minuto, querida, mas a proposta não era realizar um close reading de Isaías? Como é que você quer saltar imediatamente para Amós?


- Seu José (é assim que Silvia me chama, de José, porque no momento em que ela ligou aleatoriamente para o meu número, não abri inteiramente meu coração e preferi não contar a ela o meu primeiro nome; não menti, José é parte de meu nome e, pra dizer a verdade, tem horas em que eu penso mesmo se não teria sido melhor meus pais me darem apenas este nome: José. Ou que fosse só Guilherme. Os dois nomes juntos, principalmente levando em conta o fato de que o germânico Guilherme vem na frente, acabam soando meio nome de cantor de ieieiê), Seu José, pergunta Silvia, o senhor tem uma Bíblia em casa?


Claro que tenho uma Bíblia em casa, uma Bíblia e também um Alcorão Sagrado comprado em banca de jornal, além de um Livro dos Mórmons que ganhei do Elson. Não que esses livros ocupem um espaço privilegiado nas estantes deste apartamento. A Bíblia foi adquirida numa livraria católica do Largo Ana Rosa. É da Editora Ave Maria e constitui uma tradução dos originais grego, hebraico e aramaico mediante a versão dos Monges Beneditinos de Maredsous (Bélgica). Portanto, uma tradução para o português de uma tradução provavelmente em francês (ou seria flamengo? duvido). Peço a Silvia que me aguarde um minuto. Volto ao telefone fixo com o volume e peço para que ela confirme o capítulo e versículo. É o 33, versículo 24, Seu José. O último. Achou?


Sim, Silvia, achei. Leio em voz alta, para provar a ela que não estou zoando: "Então o próprio cego se apoderará da sua parte de um grande despojo, e os próprios coxos se entregarão ao saque; ninguém mais em Jerusalém se dirá doente: o povo dessa cidade terá seus pecados perdoados".


Eis o texto da minha versão do francês (flamengo?) para o português. Silvia não nota nenhuma diferença significativa entre as versões. E eu evito polemizar, pois reparo que há uma enorme diferença entre afirmar que "ninguém mais em Jerusalém adoecerá" e que "ninguém mais em Jerusalém se dirá doente". Qual das duas traduções aproxima-se mais do grego? Nesse momento eu me arrependo pela enésima vez de haver optado pela habilitação em Inglês na Faculdade de Letras. Foi pra isso que prestei vestibular aos 55 anos de idade? Tantas opções divertidas - o Russo, por exemplo, me permitiria ler o grosso volume do Dr. Jivago que meu avô trouxe da Europa quando veio conhecer a nora e os netos poucos anos antes de morrer; ou então o Grego, sim, o Grego que James Joyce resolveu estudar já adulto, podia até ser o Grego moderno, falado pelo Vangelis Papathanassiou, pela Irene Papas e pela Melina Mercouri. Mas não, fui optar pela habilitação em Inglês, achando que conseguiria com isto ler Joyce no original.


Enquanto minha mente divagava na reflexão sobre as opções certas e as erradas tomadas no passado, Silvia insistia, querendo saltar para Amós. Retornei à manhã do dia 26 de abril e fui firme: não, Silvia, vamos ficar em Isaías. Outro dia você pode até me telefonar para conversarmos sobre Amós ou Malaquias ou quem quiser, mas eu não vou mudar de autor e obra assim tão de repente, só pra você me convencer que o mundo ficará sem doenças um dia. Como você diz, a Bíblia foi escrita por Deus. Não vou questionar também esta afirmação que é, no mínimo, muito instigante, já que o Célebre Escritor - atenção para as maiúsculas - redigiu um catatau ainda maior do que os dois livros atribuídos a Homero, mas colocou-se numa posição de todo poderoso criador do céu e da terra, algo assim no estilo de muitos autores de Direito Ambiental. Muito bem, se a Bíblia é a palavra do próprio Deus, Silvia, você há de convir comigo que Ele não teria escrito os 32 capítulos anteriores à toa. Você pinça um versículo aqui, mistura com um trecho de outro livro e aí acaba construindo a teoria conspiratória que estiver na sua cabeça, como o nefelibata imaginando carneirinhos, personagens de Walt Disney e cavaleiros do Arizona no céu. Imagine só se eu saísse por aí misturando trechos do Cântico dos Cânticos com o Apocalipse - amores tórridos & pornografia explícita - nem a Record teria coragem de gravar uma novela dessas! Vamos então ler ao menos o capítulo 33 inteiro, combinado, Silvia?


- Fico feliz que o senhor esteja interessado na Bíblia, seu José. Eu e meu marido poderíamos ligar novamente para o senhor uma outra vez? É que já estamos conversando há mais de uma hora e eu preciso preparar o almoço.


Como é que funciona mesmo a regra de etiqueta? A Silvia ligou aleatoriamente para o meu telefone. Nesse caso, quem teria que tomar a iniciativa de desligar, ela ou eu? Eu acho que seria eu, não é? Afinal, estava sozinho em meu canto, lendo os contos de Roberto Arlt quando fui interrompido em meus estudos de literatura argentina para analisar o livro de Isaías - um debate digno e agradável que não pode encerrar-se em menos de uma hora. Quanto tempo teria dispendido Erich Auerbach para realizar as suas reflexões sobre a cicatriz de Ulisses e confrontá-las com o relato do sacrifício de Isaac?


Despertai, Silvia! Você não me ligou na manhã do domingo passado, dia 3 de maio. Desconfio que nem sequer cumpriu a lição de casa que lhe propus: ler pelo menos o capítulo 33 inteiro. Apressadas demais, essas testemunhas de Jeová nestes tempos de peste em que ninguém se diz doente e todos acham que serão perdoados. Se tivesse me ligado, a primeira coisa que eu diria a você seria: pode me me tratar por Zezinho mesmo, pra que tanto formalismo entre estudantes de teoria literária? Mas talvez o seu marido não gostasse da intimidade forjada. O seu mundo é bem diferente de meu planeta.


São Paulo, 5 de maio de 2020

Guilherme Purvin é escritor. Formado em Direito (1982) e em Letras pela USP (2018).

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