• Guilherme Purvin

Dona Neide e os Infiltrados

- Guilherme José Purvin de Figueiredo -



Eu não conseguiria me lembrar de quando foi a última vez em que a nossa família esteve inteiramente reunida na casa de campo. Todas as recordações estão amalgamadas nesse único fim de semana modelar, amontoados em colchonetes no chão da casa sem móveis.


E então, ao me erguer para beber um copo d’água na cozinha, me deparei com aquela desconhecida que vinha em busca de uma fatia de bolo na geladeira. Gritei para que ela fosse embora, aquilo era propriedade particular, e ela argumentava que a Dona Neide havia dito que era para todos se servirem à vontade, estava no pacote. Enxotei a mulher com gestos de urso e a segui até que ficasse bem longe de casa. Ao olhar ao meu redor, porém, constatei, consternado, que havia sido erguido um boteco onde antes havia um balanço para crianças.


— Quem é que autorizou vocês a construírem esta biboca em minha casa de campo? — perguntei, irritado. O homem devia ter uns 40 anos, usava uma camiseta amarela com um furo na altura do umbigo.


— A Dona Neide disse que poderíamos nos instalar aqui neste cantinho do terreno que não é usado para nada. Só temos que pagar 10% do que lucramos com as vendas de cachaça e cerveja.


— Também de salgados, amore — disse uma mulher ruiva com um coque enorme preso com grampos de cabelo. A mulher aparentava ser muito mais velha do que ele e gesticulava com um facão enorme na mão direita, a outra apoiada na cintura. — Quem é você?


— Quem sou eu? Eu sou o proprietário desta casa de campo — expliquei, soberbo. — O dono de todo este terreno que vocês invadiram. E vou lhes dizendo uma coisa: o melhor que fazem é irem dando no pira bem depressinha, se não quiserem levar chumbo grosso.


O casal, naturalmente, não se deixou intimidar pelas minhas palavras. Como se eu fosse um nada, viraram as costas e voltaram a limpar o boteco clandestino e a guardar garrafas de cerveja numa geladeira amarela da Antarctica.


Voltei para casa, onde havia um grupo de comensais na minha sala de jantar. Vi, num canto da casa, minha irmã Irene, que parecia muito triste.


— Você quer jantar? — perguntei a ela.


— Estou sentindo muita dor no rosto — ela respondeu. E eu, sempre inábil, achei que se apanhasse um prato cheio de legumes grelhados, a deixaria feliz. Levantei-me ao encalço da comida. No entanto, os comensais davam garfadas no meu prato e eu não conseguia nunca servir a minha irmã. Reclamei com o mordomo, que me disse:


— Dona Neide disse que é preciso primeiramente servir todos os novos hóspedes. Se sobrar algo, entregarei ao senhor.


— E quanto à minha irmã? Veja como ela está triste!


— É verdade, Sr. Julio — disse o mordomo. — Mas não adianta vir com chantagens sentimentais. Dura lex, sed lex. As sobras serão suas, se as houver.


Voltei para procurar a minha irmã. Não havia comida, mas ao menos eu poderia abraçá-la e aquecê-la para que ela não sentisse mais nenhuma dor. Olhei ao redor e ela não estava mais ali. Irene havia sido absorvida pelos infiltrados, que erguiam agora um brinde à Dona Neide.


São Paulo, 4 de agosto de 2020


Guilherme Purvin é escritor e horticultor urbano.

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