• Guilherme Purvin

Labir, 147

Atualizado: Fev 3

Guilherme Purvin



Labir 147 - (c) Guilherme Purvin, 2021


[01] Conheci Itamar, que sempre teve grande talento para realizar análises psicológicas, num dia em que não pensava noutra coisa senão no fornecimento de bananas para sua cidade. [02] Não que fosse grande apreciador da fruta, mas porque, acolhendo minha sugestão, aplicara naquele dia toda a sua reserva financeira no mercado de ações, apostando nesse ramo. [03] Saiu do escritório de corretagem dizendo que iria para sua casa, queria dormir um pouco, mas não passou uma hora e me ligou, dizendo estar com o estranho desejo de beber vinagre. [04] Na hora, pensei comigo que o psicólogo amador que viera me procurar para aconselhamento financeiro não era assim tão normal e que isso poderia me trazer dor de cabeça no futuro.

[05] Passaram-se algumas semanas desde a história do vinagre, casualmente vim a saber que ele era também o famoso paisagista que remodelara a Praça San Isidro, fato que me agradou. [06] Concluí que nada havia de errado com ele e que a conversa maluca se dera por um simpático impulso de espontaneidade, que ele pensava mesmo era no planejamento de praças urbanas. [07] Telefonei para dizer a ele que as ações relativas à distribuição de bananas na cidade haviam subido significativamente e que talvez este fosse o momento de colocá-las à venda.


[08] Encontrei-o na Praça San Isidro observando um pássaro que voava em círculo, talvez se preparando para dar o bote em alguma presa que, ali de baixo, não imaginávamos qual fosse. [09] Assim que me viu, o paisagista quis logo esclarecer a razão de ser daquele seu telefonema sobre vinagre ou, para ser tecnicamente mais exato, sobre seu desejo de ácido acético.


[10] — Meu caro, — começou ele — não sei se você é cristão, na verdade não sei absolutamente nada a seu respeito, a não ser que é um conceituado corretor no mercado de ações, é o que basta.


[11] Mal consegui disfarçar a surpresa com tal abordagem, querendo entender por que ele trazia questões religiosas para uma conversa que esperava ser sobre aplicação de capital. [12] Perguntou-me, sério, se já lera a Bíblia e se conhecia a passagem dos Salmos, capítulo 69, versículo 21: “Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre”.


[13] Incrédulo com o rumo da conversa, esbocei um sorriso, achando a princípio que aquela era apenas a introdução de alguma anedota e que tudo logo terminaria em sonora gargalhada. [14] A suposta piada, porém, precisou ser interrompida, pois acabara de chegar na praça um amigo comum, o cartunista Rui Lyra, do Jornal da Noite, famoso pelo humor implacável.


[15] Embora inegavelmente talentoso, Rui Lyra tinha um grave defeito: era incapaz de participar de uma conversa em curso sem desviar o assunto até tornar-se o centro das atenções. [16] Assim, graças ao hábil cartunista, não fui capaz de tratar da venda das ações no mercado de transporte de banana nem Itamar concluiu a anedota ou sei lá o que fosse sobre vinagre. [17] Rui Lyra, atento também ao voo do pássaro, honrou-nos segredando o tema do cartum que desenharia no dia seguinte: urubus pairando sobre a casa do prefeito: — Que acham, amigos?


[18] Eu não achava nada, nunca me interessei por política municipal, por isso ignorava a motivação do cartum e começava a me irritar com aquela perda de tempo em horário de trabalho. [19] Itamar, porém, parecia antenado com questões edilícias e logo engatou uma conversa com o cartunista sobre as críticas ao uso de foice para aparar gramado dos parques urbanos. [20] O prefeito realizara uma licitação para compra de dispendiosos aparadores de grama a diesel que, além de muito barulhentos, acabaram causando a morte de uma ninhada de gatos. [21] “Acidentes ocorrem”, justificou o prefeito e, desastradamente, completou: “Morrer faz parte da vida e, sem defunto, urubu morreria de fome e seria devorado por seus pares”.

[22] Passei o resto do dia diante do computador refletindo sobre tendências de mercado, algo tão inútil quanto buscar a paz refletida em janelas esféricas no alto da Torre de Babel. [23] Depois de me ocupar por horas com os bolsos de estranhos, voltar para casa era fugir daquela janela côncava a distorcer a paisagem e do rumor contínuo de línguas indecifráveis. [24] A visão daquele pássaro em circunvoluções sobre nossas cabeças na praça me fez pensar em quando perdi a vontade de realizar uma empresa complexa, isto é, de planar nas alturas. [25] Entre um psicólogo ou paisagista e um cronista de cartuns, era eu a covarde sensaboria empresarial que, por medo do perigo, opta por sufocar toda aposta de prazer aventureiro. [26] Não conhecia nem era preciso conhecer Itamar: estava bem claro que aquele seu discurso vinagreiro prenunciava seu nado no limiar da ruptura do solo duma caudalosa cachoeira.


[27} Foi nesse momento que tomei a decisão de largar a corretagem e aprender patins, sem levar em conta aquela brasa orçamentária que corroía minhas roupas, arrombando o meu bolso. [28] Pensando em minha condição física, porém, concluí ser melhor estudar sânscrito, dedicar duas horas por dia a esse novo idioma, seria esse o meu jeito de querer provar vinagre.


[29] Decorridos três meses de meu pedido de demissão, vieram os efeitos da falta de dinheiro: o corte da linha telefônica me levou a andar com o bolso repleto de fichas para o orelhão. [30] O telefone público mais próximo ficava diante do bar onde trabalhava uma morena gostosa sempre vestida com um shortinho minúsculo e apertado que bem deixava ver seu cofrinho. [31] Eu procurava os óculos para apreciar aquela maravilha, quando esbarrei numa lâmpada que estava numa das mesas, a qual espatifou no chão, espalhando cacos por todos os cantos. [32] Me preparava para pedir desculpas pelo acidente, quando o dono da lâmpada, erguendo-se atabalhoadamente, declarou eufórico: — Não resisto ao desejo de um cálice de vinagre!


[33] Mal acreditei ao ver ali meu velho cliente Itamar, que me fez sentar na cadeira ao lado e insistiu, olhando ora para mim, ora para o vazio: — Isso mesmo, novamente o ácido acético!


[34] Eu repartia a atenção entre o psicólogo das bananas e a morena de shorts que generosamente virava seu bumbum em minha direção enquanto varria os caquinhos para dentro de uma pá. [35] Procurei me controlar, pois o desejo era constantemente revigorado, recapitulando as páginas do livro de sânscrito e pensando no adestrador de pássaros da Praça San Isidro. [36] Enquanto um freguês pedia um quilo de sabão em pasta, Itamar, sem parar de falar na Bíblia, ergueu o pé esquerdo e tirou o sapato, incomodado com um furo na sola: — Sabe Jesus, não?


[37] — Claro que sim — respondi, incomodado com os cortadores de grama a diesel do prefeito, mais ruidosos do que um helicóptero, que passavam em ostensivo desfile militar pela rua.


[38] — Antes de morrer, Jesus sentia muita sede e desejou beber, não água, mas o vinagre que um soldado embebeu num pedaço de esponja, levando-o com o auxílio de uma vara à sua boca.


[39] Mas, pelo rumo da conversa, a ânsia dele em contar-me a respeito da acre mística enológica parecia dar lugar ao desejo mais urgente de resolver o problema do orifício no sapato.


[40] — Você manteve a aplicação no mercado de distribuição de bananas? — perguntei, totalmente sem interesse em ouvir a respeito de esponjas embebidas em vinagre ou helicópteros.


[41] Itamar perguntou ao menino que ajudava a morena a varrer o vidro da lâmpada se havia no cesto de lixo alguma caixa vazias de cigarros flip-top, para ele usar como calço no sapato. [42] O menino não entendeu direito e trouxe uma carteira de Minister que eu acabei pegando para mim, aproveitando para pedir outra lâmpada igual à que eu desastradamente quebrara. [43] Acabei entregando os meus parcos últimos vinténs à morena de shorts e pedi desculpas a Itamar pela pressa, estava atrasadíssimo para a reunião que havia agendado com Rui Lyra. [44] Saí na direção do cotejo dos aparadores de grama, desabotoei o paletó, acendi um cigarro e pensei que seria útil passar sempre a andar com uma caderneta para anotar boas ideias.


[45] Tendo perdido de vista o trajeto dos cortadores, tentei orientar-me por seu ruído e enveredei por ruelas estreitas de uma região da cidade que me era totalmente desconhecida. [46] Desci uma ladeira íngreme e encontrei vários caminhões e carroças carregados de caixas: a distribuição urbana de bananas não era apenas uma aplicação na bolsa, era algo real. [47] A noite era escura e um eclipse lunar divertia a criançada, mas o supervisor não permitia a interrupção do serviço, carregar as caixas pesadas para os caminhões como formigas. [48] Dizem que Labir é um bairro perigoso, as pessoas correm o risco de escorregar em cascas de banana ou, pior, de ser capturadas para trabalhos forçados em plantações do prefeito. [49] Itamar, porém, me ensinou a desapegar-me de qualquer instituto de sobrevivência em noites de eclipse e o que eu quero é aprender a desenhar cartuns irônicos como os de Rui Lyra.

Este conto, integrante do meu novo livro "Rumo à próxima aldeia", teve início em abril de 1987 e estrutura-se em 49 parágrafos, cada um deles constituído de 147 caracteres. Considerando que a trama envolve três personagens, subentende-se que há mais dois contos de idêntica estrutura, um narrado por Itamar e outro por Rui Lyra, completando-se assim uma trilogia formada por 147 parágrafos (49 x 3), cada qual com 147 caracteres, ou seja, 147^2 = 21.609 caracteres. São Paulo, 1º de fevereiro de 2021

Guilherme Purvin

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